sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Uma amiga chamada solidão

     Eu sempre fui alguém cercada de pessoas. Meu pai tem dez irmãos, minha mãe tem doze, e daí você pode imaginar quantos tios e tias compõem a minha vida, sem falar nos primos, filhos dos primos e todos os agregados. Já não bastasse ter uma família gigante, ainda fui criada em uma igreja de muitos membros, que interage com outras igrejas (da mesma denominação e de outras!), frequentei escola e fiz faculdade, o que pode explicar o grande número de amigos que tenho nas redes sociais. Sim, eu sou uma pessoa sociável. Conheço muita gente e muita gente me conhece, e tenho grande carinho por muitas pessoas e sei que muitas delas também o tem por mim.

     No entanto, apesar de sentir-me amada e saber que muitas pessoas me querem tanto bem, a cada dia cresce a terrível e assustadora sensação de que estou só. Acho que todo mundo que já foi adolescente um dia deve ter sentido em algum momento da vida a sensação de estar sozinho no meio da multidão. É normal. Mas a infertilidade prolonga essa sensação por tempo indeterminado e numa intensidade nível hard. O mundo não é feito de pessoas inférteis, apesar de este ser um problema que afeta tantas pessoas no mundo. A infertilidade sequer é citada entre os problemas da vida. Quer ver um exemplo? Eu sempre vejo os pregadores dizerem: "Você pode estar passando por uma doença na família, por problemas no seu casamento, ou problemas no relacionamento com seus filhos, ou problemas financeiros..." Dificilmente, alguém mencionará a infertilidade... Parece bobagem isso. E é. Mas o fato é que a infertilidade não parece um problema. Parece apenas um pequeno obstáculo à realização de um sonho pessoal. Quando alguém diz que é infértil, as pessoas ouvem algo como: "Queria tanto ter um filho... Mas não consigo realizar esse sonho." É quase comparado a alguém que diz: "Queria tanto comprar um carro... Mas não posso... Só ando a pé." As pessoas sentem um pouco de pena, e desejam que um dia o sonho se realize. Mas é só. Não chega a ser um problemão. É quase beirando à futilidade. Se as pessoas lhe vêem sofrendo por não ter um carro e só andar a pé, o que elas vão achar? Que você está exagerando, que tem outras formas de se locomover... Pega um ônibus. Um táxi. O metrô. Vai de bicicleta. Pronto. Simples. Que exagero sofrer por isso. Com a infertilidade é semelhante. Não pode ter? Ah, é simples: adota! Faz inseminação! Ou fica sem filhos, o que é que tem? Não chega a ser um problema de fato. Filhos entram apenas na esfera dos sonhos. Quem realmente enfrenta a infertilidade logo aprende que dificilmente alguém conseguirá entender a dimensão desse sofrimento, sem pender para a minimização do problema. Cada vez que expressamos qualquer tipo de sofrimento, acabamos nos sentindo ou crianças mimadas (chorar por não ter algo parece bem infantil mesmo, na perspectiva das pessoas), ou culpadas (porque não estamos confiando em Deus, ou porque não sabemos esperar, ou porque não "relaxamos") ou inconvenientemente tristes (porque a pessoa sempre tem que estar feliz, se não, está beirando a depressão ou a loucura e precisa urgentemente de um psiquiatra.).

     Quando Jó enfrentou grandes e terríveis dores, também teve de suportar a solidão e a incompreensão. A sua própria mulher não foi capaz de compreender o que estava acontecendo: "Ainda conservas a tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre." Claramente, essa jornada de sofrimento de Jó foi um trabalhar individual de Deus com Jó. Deve ter sido um período extremamente solitário para Jó, pois embora ele soubesse que era pecador, Ele sabia que aquele sofrimento não era por punição a nenhum de seus pecados.  Ele sabia que o sofrimento vinha da parte de Deus, mas não conseguia compreender as razões (Jó 10.7, 8; 12.9), até chegar o dia em que ele pôde dizer, afinal: "Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem." Sim, Deus usou o sofrimento para lapidar o coração de Jó, para fazê-lo conhecer os Seus caminhos, o Seu poder e a Sua misericórdia, como nunca antes. Ninguém podia aprender o que Jó estava aprendendo, ninguém podia entender o que Jó, pouco a pouco, passou a entender! Deus falava com Jó, e em toda aquela terrível fase, Jó estava cercado de pessoas, porém, profundamente solitário. Era ele e Deus o tempo todo. Deus o fazendo sentir-se incompreendido, sozinho, necessitado, dependente, para, depois de tudo, revelar-se a Jó de uma maneira transformadora e inimaginável. Jó, ao final, descobre que a sensação de solidão não significava uma solidão real. Ele nunca esteve só. Deus mostrou-se soberanamente presente, ativamente presente, e o Único verdadeiramente presente. Ele era o Agente Principal de tudo aquilo. Ele era a Causa e a Consequência. Ele era o Motivo.

     Penso em Jó e não me vem muito à memória a sua paciência. O que me lembra Jó é a sua solidão, com a qual me identifico agora. A caminhada cristã, apesar de nos fornecer a benção da comunhão com os irmãos e da unidade do corpo de Cristo, nos é  profundamente solitária. As situações do dia a dia, a rotina, os relacionamentos e os desafios diários são diferentes para cada cristão. Cada um de nós teremos que enfrentar sozinhos a lida do nosso dia a dia, cada um carregará a sua própria cruz, renunciará a sua própria vontade e desejos carnais e será moldado, em particular, pelo Deus que nos santifica. Ninguém poderá viver a minha infertilidade, e ainda outros que enfrentam o mesmo problema serão transformados de outro modo. As aulas de Deus são particulares. Não há como alguém passar a resposta de uma questão de prova nas aulas de Deus, porque, na realidade, não há ninguém ali, além de Deus e eu. Deus e você.

     Por ser uma pessoa extremamente social, acostumada com pessoas, dependente delas e sempre cercada por elas, tem sido difícil (MUITO DIFÍCIL!) entender a solidão como método de Deus. Mas a cada dia, percebo mais que ninguém poderá me ajudar, a menos que ore por mim. Nenhum palavra, ou abraço, ou solução imediata, resolverá. Somente o Senhor pode traduzir a minha confusão de pensamentos, somente Ele pode me ensinar, me aconselhar, me repreender, me acolher, enxugar minhas lágrimas, me compreender. E só Ele pode fazer isso porque é Ele quem me tem dado a infertilidade, e não outro. Por uma só palavra dEle, a estéril torna-se alegre mãe de filhos. É Ele que, por alguma razão, nos tem dado a infertilidade, e Ele quem tem nos afligido, seja para nos ensinar, repreender ou revelar a Sua glória (ou tudo isso junto!). Eu sempre digo ao meu esposo que o motivo de não termos filhos não é o fator feminino ou fator masculino. É, simplesmente, o Senhor quem nos impede de gerar. E só Ele pode mudar essa realidade.

     "Bom é o Senhor para os que esperam por ele, para a alma que o busca. Bom é aguardar a salvação do Senhor, e isso, em silêncio. Bom é para o homem suportar o jugo na sua mocidade. Assente-se solitário e fique em silêncio; porquanto esse jugo Deus pôs sobre ele; ponha a boca no pó; talvez ainda haja esperança". Lm. 3.25-29. Que a solidão não nos assuste, nem nos faça perder o juízo. Que a solidão nos torne mais hábeis para perceber quem sempre esteve presente. Que ela nos quebre e nos refaça. Que ela nos ensine, nos confronte, nos transforme e nos revele nitidamente a glória do Deus que opera em nós tanto o querer como o realizar. Que a solidão nos faça compreender que não somos o centro dos acontecimentos de nossa vida, mas que Ele é e sempre será. Ele é o motivo de tudo. Que o silêncio solitário que nos invade nos faça ouvir melhor a voz que nos diz "Eis que estou convosco até a consumação do século".

Soli Deo Gloria!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Os filhos e os motivos...

   

     J. Stephen Yuille, em seu livro Uma Esperança Adiada - A Adocão e a Paternidade de Deus, usou esse termo para definir a sensação da excruciante dor da infertilidade: sim, é como bater, sem querer, num osso quebrado.

     É difícil conviver com um coração quebrado. As pessoas ao redor não estão vendo. As pessoas não sabem que dói. Eu mesma esqueço que dói, até topar com o próximo comentário, esbarrar na quina de uma conversa despretensiosa ou magoar o quase curativo no próximo conselho repetido.

     Dói. Dói muito. No entanto, por vezes, o problema é reduzido a quase nada, talvez por não ser um "osso quebrado" visível, talvez por falta de informação das pessoas. Diante de tantas soluções fáceis de serem ditas (e praticamente impossíveis de resolver o problema), eu mesma começo a me perguntar: Por que mesmo estou sentindo tudo isso? A minha dor tem algum sentido? Ter filhos é tão normal que chega a parecer banal. Por isso, não tê-los não chega a surpreender as pessoas, como um câncer ou o HIV, por exemplo. Parece até cruel da minha parte comparar a dor da infertilidade com uma doença grave. Afinal, o que tem de mais em não ter filhos? Por que sofrer tanto com isso? Parece fácil apresentar soluções simples para um problema que parece pequeno. Afinal, a infertilidade é um problema pequeno? Qual a importância dos filhos, para quem tem filhos? Será que eles não tem um valor (olhando por uma perspectiva reduzida) humano, social? E, sendo já grande essa dignidade, ainda que meramente humana, filhos não tem ainda maior valor na perspectiva bíblica, divina?

     "E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, enchei a terra e sujeitai-a;" Gn. 1.28. O homem e a mulher, criados à imagem e semelhança de Deus, o Deus Altíssimo, receberam, ao serem criados, uma ordem de Deus: multiplicarem-se, encherem a terra, sujeitá-la. Uma vez, quando estava morando no Instituto Bíblico do Norte - IBN, o rev. Milton César pregou nesse texto e eu gravei uma importante lição após a mensagem: Deus nos mandou multiplicar e encher a terra, não porque ele queria o mundo cheio de gente, simplesmente, mas porque, por meio da multiplicação do homem, toda a terra estaria cheia da imagem e semelhança dEle, o Deus Vivo. Sabemos que o homem pecou e que agora, esta imagem está manchada pela terrível sombra do pecado em nós. Mas, por causa da riqueza da misericórdia de Deus, Cristo nos dá esperança em Sua vida, morte e ressurreição. O "multiplicai-vos" continua sendo uma forma escolhida por Deus para que a terra seja cheia da Sua glória. Então, em primeiro lugar, fomos criados para a glória de Deus, e gerar filhos, criar filhos para a glória de Deus faz parte da ordem que nos foi dada, como seres criados por Deus, para a Sua glória. É um mandato.

     Em segundo lugar, "Herança do Senhor são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão. Como flechas na mão do guerreiro, assim os filhos da mocidade. Feliz o homem que enche deles a sua aljava; não será envergonhado, quando pleitear com os inimigos à porta." Sl. 128.3-5. A Palavra de Deus nos diz que os filhos são uma herança de Deus. Se há verdadeiro amor, verdadeiro temor em nosso coração, pelo Deus Vivo, devemos considerar que Sua herança dada a nós é de grande valor, de valor inestimável e deve ser ardentemente desejada por Seus filhos. A Bíblia associa os filhos à felicidade, neste salmo. Sim, é uma feliz herança, de valor imensurável, e deve ser apreciada por nós, almejada, valorizada, como um rico tesouro, como uma fonte de deleite, dada a nós pelo próprio Deus.

     Em terceiro lugar, as Escrituras nos apresentam os filhos não apenas como um mandato ou como um deleite, mas também como pontes para as futuras gerações. Não viveremos para sempre nesta terra. Os nossos filhos viverão depois de nós, e terão filhos, que terão filhos, que levarão às futuras gerações, continuamente, a riqueza da graça e do amor de Deus. "O que ouvimos e aprendemos, o que nos contaram nossos pais, não o encobriremos a seus filhos; contaremos à vindoura geração os louvores do Senhor, e o seu poder, e as maravilhas que fez." Sl. 78.3-4. Sim, filhos são parte do mandato, são uma fonte de deleite e são pontes para o futuro, por meio das quais a Igreja do Senhor se manterá viva nas futuras gerações.

     Eu poderia falar muito mais sobre o valor dos filhos para Deus, como, por exemplo, a forma como podemos viver em uma figura viva do amor de Deus por nós, seus filhos, e de como esses relacionamentos humanos (pais e filhos) revelam a grandeza do amor de Deus Pai por nós, entre tantos outros aspectos que a Bíblia ressalta na importância da criação de filhos para o nosso Deus. Mas acredito que estes três já sejam suficientes para mostrar que ter filhos não é uma coisa banal e que a infertilidade pode causar uma dor profundamente estonteante, porque faz o casal infértil se sentir incapaz de viver em família, de experimentar a riqueza desse deleite maravilhoso e único, não experimentado em nenhum outro relacionamento, a não ser na relação entre pais e filhos. Não poder gerar filhos gera incertezas, medos, tristezas e sensação de que não viveremos plenamente o evangelho, embora Cristo já tenha vencido por nós todas essas incertezas e já nos tenha garantido a Sua plenitude e graça.

     De alguma maneira, foi bom eu ter me aberto com a igreja e com vocês sobre o nosso problema de infertilidade. Por outro lado, me deparo com um constante arrependimento de ter me exposto tanto, talvez na tentativa de me esvaziar da dor e encontrar algo, algum conselho ou alguma coisa que aliviasse a minha dor. Hoje eu sei que as pessoas, por maior amor que tenham, e por melhores que sejam suas intenções, não conseguem chegar no cerne da dor, e, querendo aliviá-la, acabam tentando minimizar uma dor que é grande, e que não pode ser minimizada só porque ter filhos parece comum. Ter filhos, embora seja algo frequente e acontece com a maioria dos casais, é sempre um milagre, e será sempre especial, sempre marcante, pois este mandato estava conosco na criação, nos é um deleite no presente e uma ponte para o futuro.

     Se você é mãe ou pai, valorize a riqueza da maternidade/paternidade, dada a você pela graça divina. Não tente consolar seus amigos inférteis falando como se eles estivessem em vantagem por estarem sem filhos, por poderem aproveitar a vida a dois etc etc. Eles não estão em vantagem. E embora Deus possa abençoá-los ricamente sem filhos, Deus, por algum motivo, os está privando de gerar filhos. O melhor a fazer é orar por este casal, dar o seu amor e suporte e procurar sentir a dor desse casal. É como um osso quebrado. Se você está tentando ter filhos, assim como nós, eu sei como você se sente. A dor é mesmo excruciante. Que Deus nos ajude a suportar a dor da infertilidade, com grande esperança no porvir, onde Ele enxugará dos nossos olhos toda lágrima, e não haverá mais dor, nem tristeza, pois Ele será a nossa alegria, perpetuamente.

Soli Deo Gloria

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

A maternidade em Margaret Blaarer!



Olá, pessoas!

     Dessa vez, demorei bastante a escrever novamente. Não tenho estado muito bem. E, às vezes, é até melhor não falar muito sobre o assunto "gravidez", para diminuir a ansiedade. Ao mesmo tempo, quando me dedico a escrever neste blog, começo a enxergar melhor a realidade e a minha confiança no Senhor se fortalece. Quando tenho que estudar para escrever, não apenas escrevo para os leitores, mas o meu próprio coração aprende e encontra conforto (não em minhas palavras, mas na Palavra do Senhor e na forma como o Senhor vai trabalhando em minha compreensão).

     Há um tempo, escrevi um texto aqui falando que desejava escrever algo sobre as leituras às quais tenho tido acesso nesse período da minha vida. Então, resolvi começar por um capítulo de um dos maravilhosos livros da biblioteca do meu esposo, Sam: Grandes Mulheres da Reforma. Você já teve a oportunidade de ler esse livro? Bem, eu ainda não o concluí (ao que parece, meu pai está certo quando diz que eu sou formada em Desistência. --' Mas, felizmente, eu não desisti desse livro! Devo terminá-lo essa semana!), porém, até o presente momento, estou profundamente tocada com o exemplo de vida de tantas mulheres que influenciaram tão marcante e docemente o movimento da Reforma Protestante.

     No capítulo II, a respeito da Reforma na Alemanha, um nome me chamou a atenção: Margaret Blaarer. Ela não é mencionada no livro como uma esposa (ao que parece, ela não se casou). Entretanto, há um motivo para eu tê-la escolhido dentre as tantas mulheres apresentadas neste livro. Sem entrar em minúcias a respeito do contexto, Margaret era irmã de Ambrose Blaarer, um reformador importante em Constança e Wittemberg. Haviam ali muitos ministros pregando o evangelho, em 1527. Mas as dificuldades eram grandes. O autor fala que secas, pragas e terremotos vieram um após o outro. E "Margaret foi a excelente auxiliadora do seu irmão Ambrose.". Margaret destacava-se por ser uma mulher intelectual e era muito honrada por homens importantes na época. Mas o que desejo destacar é o seu coração humilde e cheio de bondade, que fazia dela uma verdadeira mãe. E aqui, quero destacar alguns trechos do livro com você: "Margaret era incansável em fazer o bem. Ela ensinou muitas crianças pobres a ler. Muitas foram as viúvas e os orfãos que ela visitou em seu sofrimento. Enquanto o seu irmão Ambrose empunhou a espada espiritual, a Palavra de Deus, e o seu outro irmão Thomas empunhou a espada da autoridade civil como líder da Reforma no conselho da cidade, o seu trabalho foi um labor quieto e silencioso de amor que alcançou a todos. A primeira sociedade de mulheres para cuidar dos enfermos foi organizada por ela; e com isto ela tornou-se a fundadora da primeira sociedade de mulheres da Igreja Protestante." Quero partilhar também um trechinho de uma carta que o irmão dela, Ambrose, escreveu para o reformador Bullinger: "Margaret, a melhor das irmãs, se comporta como uma arqui-diaconisa de nossa igreja, expondo a sua própria vida ao perigo. Diariamente, ela visita as casas onde os enfermos da peste estão sendo cuidados. Ela acabou de tomar uma pequena menina, a qual já tem ajudado e apoiado durante dez anos, para morar em sua casa. Ore ao Senhor, eu lhe suplico, para que Ele não permita que ela, que é o nosso único conforto, seja arrancada de nós."

     Bem, Margaret morreu em 1541, aos 47 anos, no mesmo ano em que seu irmão escreveu esta carta. Mas ter acesso à sua história me trouxe tanta coisa, tantos pensamentos, tantas lições, tantas reflexões! Essa bagagem se reflete em compreender as dimensões da maternidade de uma forma que pouco falamos ou ouvimos falar. Graças a Deus, a maternidade com a qual Ele presenteou as mulheres não se resume à gravidez. Embora a gravidez deva ser desejada pelas mulheres cristãs verdadeiramente tementes a Deus, a maternidade não é apenas um fenômeno biológico, fisiológico. Cada vez mais, estou convicta de que a maternidade é uma característica que mais tem a ver com um estado de submissão ao senhorio de Cristo do que com as condições naturais de se gerar um filho. Há muitas que geram filhos, que são de um certo modo mães, mas não exercem a maternidade. Entretanto, há tantas outras que, ainda solteiras, exercem a maternidade abundantemente, sem impedimentos, sem reservas. Margaret traz pra mim um grande exemplo de mãe. Deus, em Sua soberania, não lhe concedeu um casamento (até onde eu sei) ou filhos de seu ventre. Entretanto, Deus deu a Margaret um coração de serva, cheio de bondade, capaz de submeter-se a situações de grande perigo para ajudar os aflitos. Porventura, mãe não é mesmo assim? Aquela que cuida desprendidamente, que ama e sofre em favor de seus filhos? Margaret era uma verdadeira pérola, de grande valor diante de Deus e das pessoas ao seu redor. Bucer, o reformador de Estrasburgo, referia-se a ela como "irmã" e "mãe", embora ele fosse mais velho que ela três anos. A maternidade estava viva em seu coração. Ela compreendia que toda a sua feminilidade, dada por Deus, deveria servir e abençoar as crianças, as viúvas, os orfãos, os servos de Deus que estavam ali, bem ao seu redor, enfrentando tantas doenças e necessidades.

     Penso sobre mim. Sobre nós e nossa compreensão contemporânea a respeito da vida. Queremos ser mães. Mas queremos ser mães à nossa maneira. Queremos ter filhos biológicos, de preferência uma menina, para enfeitarmos de muitos lacinhos e frufrus. Queremos que seja logo, pois não queremos ser avós dos nossos filhos. Queremos pra ontem. Queremos que sejam filhos saudáveis, e de preferência que sejam a nossa cara. Queremos. Queremos. Queremos. E não é errado desejar todas essas coisas. Entretanto, esse nosso modo de desejar as coisas, sempre conforme a nossa própria vontade, pode nos cegar para aquilo que Deus já colocou em nós. 

     Então, de que maneira, você e eu podemos exercer a nossa maternidade hoje? Existe algum jovem carente na sua rua, necessitado dos nossos conselhos maternais? É uma criança necessitada que visitou a nossa igreja que precisa do nosso cuidado de mãe? É um abrigo? Um orfanato? Um hospital? Uma reunião de adolescentes? Quem precisa do nosso cuidado de mãe, hoje? É um jovem seminarista? Uma jovem desgarrada? Um novo convertido? Deus nos fez maternais. Quanto mais nos submetemos ao Senhor, mais entendemos que o nosso serviço não se resume ao que gostamos, mas ao Reino de Deus em toda a sua plenitude. Existem outras formas de ser mãe. Você abrirá seu coração para a maternidade, como serva de Deus, e buscará nEle orientação para vivê-la plenamente, a partir de hoje? Ou ficará presa unicamente à sua própria vontade?

"Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, FILHOS e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna." Mc. 10.30.

     Que a nossa esperança não se limite a esta vida! Que os nossos olhos vejam e o nosso coração se submeta em bondade ao Senhor que já nos tem dado todas as coisas! Que a bondade de Cristo produza em nós a maternidade além do que os olhos possam ver! Que acolhamos maternalmente em nosso coração, em nossas orações e em nossa vida prática tantos aflitos e necessitados, seguindo o exemplo de tantas santas mulheres, não apenas da Reforma Protestante, mas descritas na Palavra, que, submetidas em amor ao Senhor, foram mães de tantos servos de Deus e de tantos quantos Deus lhes concedeu como verdadeiros filhos de amor. Que Deus nos abençoe!

Soli Deo Gloria!

(imagem retirada do blog Mulheres Piedosas)

terça-feira, 27 de setembro de 2016

A verdadeira fé!

    

     "No ano terceiro do reinado de Jeoaquim, rei de Judá, veio Nabucodonosor, rei da Babilônia, a Jerusalém e a sitiou. (...) Disse o rei a Aspenaz, chefe dos seus eunucos, que trouxesse alguns dos filhos de Israel, tanto da linhagem real como dos nobres, jovens sem nenhum defeito, de boa aparência, instruídos em toda a sabedoria (...). Entre eles, se achavam, dos filhos de Judá, Daniel, Hananias, Misael e Azarias." Dn. 1.1, 3, 4a, 6.

     Escrevi partes do início do livro do profeta Daniel para que você possa entender, primeiramente, o contexto em que se encontravam os personagens bíblicos sobre os quais discorrerei neste texto. Hananias, Misael e Azarias tiveram seus nomes mudados pelo chefe dos eunucos do rei Nabucodonosor para Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, respectivamente. Eles agora viviam sob o domínio do rei da Babilônia. A maioria de nós já conhece essa história, de como eles se recusaram a se contaminarem com as iguarias do rei (v. 8), de como eles se destacaram dos demais jovens neste episódio, alimentando-se apenas de legumes e água (v. 12) e do quanto Deus os abençoava com inteligência (v. 17) diante de todos.

     No capítulo 3, contudo, vemos que o rei Nabucodonosor fez uma estátua de ouro enorme (v. 1), mandou chamar todos os seus servos - sátrapas, prefeitos, governadores, juízes, tesoureiros, magistrados, conselheiros e todos os oficiais das províncias (v. 3) -, para a consagração da estátua. E o arauto anunciou a todos a ordem do rei, de que todos indesculpavelmente teriam de se prostrar e adorar à estátua, quando soassem, por ordem do rei, os instrumentos e toda sorte de música (v. 4). Ao ouvirem isso, alguns homens caldeus lembraram-se de Hananias, Misael e Azarias e foram contar ao rei, o qual mandou chamá-los e ordenou-lhes firmemente que eles deveriam obedecer ao seu decreto e adorar à estátua, sob pena de serem lançados em uma fornalha de fogo ardente (vs. 14, 15). E conclui sua fala: "E quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?" Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, prontamente, lhe responderam: "Ó Nabucodonor, quanto a isto não necessitamos de te responder. Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e das tuas mãos, ó rei. Se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que levantaste." (vs. 16, 17).

     Já faz um tempo que medito sobre a resposta dos amigos de Daniel e a situação em que vivo hoje, após o diagnóstico da infertilidade. Se você enfrenta o mesmo problema que eu, já deve ter ouvido muitas pessoas insinuarem a sua falta de fé, ainda que não intencionalmente. Eu já até escrevi um texto sobre os conselhos que recebemos sobre este assunto e nem preciso repeti-los todos aqui. Mas o que observo é que a fé de que tanto falam e que é descrita para nós é bem semelhante à confissão positiva, só que com uma coloração suavizada, porque o termo usado é "fé" em um contexto religioso. É como se quisessem dizer que eu tenho que crer que eu vou ser mãe, se não eu não vou ser mãe. Não é bem parecido com o discurso espiritualista mundano de que a gente tem que "pensar positivo" para atrair "boas energias" ou "boas vibrações"? Dizer "Creia, vai chegar a sua hora!" ou "Vai dar certo! Confie em Deus!" é um tipo de fé um tanto quanto diferente da fé que tiveram os amigos de Daniel. Você não acha?

     Mas em que se diferencia? Fé é fé. Sim, é verdade. Mas a fé verdadeira, que Deus, soberanamente, deu aos amigos de Daniel, permitindo que estivesse registrada em Sua Palavra para nos servir como exemplo fundamental, não é uma fé depositada em coisas, em eventos, em situações passageiras ou sonhos ou desejos. A fé, a verdadeira fé, que deu coragem aos amigos de Daniel para enfrentarem o poderoso rei Nabuconosor, sob pena de morte, é depositada, não em coisas, mas em Deus. Eles não temiam a própria morte, embora soubessem que Deus, o Deus a quem serviam, era poderoso para livrá-los, como, de fato, o fez.

     Certamente, não estamos sendo ameaçadas de morte, e a situação daqueles homens, no livro de Daniel, não se assemelha à nossa. Mas podemos aprender muito sobre fé com este livro, inclusive quando o próprio Daniel, no capítulo 6, é lançado na cova dos leões. Sim, da mesma maneira que Deus operou um milagre na vida de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, livrando-os da fornalha ardente, Ele pode abrir a nossa madre e nos dar filhos! Sim, da mesma maneira como Deus livrou a Daniel da cova dos leões, Ele pode nos livrar de uma vida sem filhos e nos fazer mãe de muitos! Mas a grande lição que aprendemos com a vida desses homens é que o Senhor é digno de nossa fé e confiança, ainda que Ele não nos livre. Tudo é para a Sua glória. Nada é sobre nós mesmas. A nossa confiança não está em que Deus realizará todos os nossos desejos, por melhores que eles sejam, ou que nos livrará de todas as situações de perigo. Se fosse assim, não existiriam mártires, homens os quais "foram apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos a fio de espada; andaram peregrinos, vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos, maltratados (homens dos quais o mundo não era digno), errantes pelo deserto, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra. Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé não obtiveram, contudo, a concretização da promessa, por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados." (Hb. 11.38-40)

     O que podemos aprender, portanto, diante do que foi dito? Que a nossa fé, a verdadeira fé, precisa estar em Deus e no Seu Filho Jesus Cristo. Creio que Ele pode fazer todas as coisas e que nenhum diagnóstico, por pior que seja, pode impedi-lo de realizar a Sua vontade! Sara já era de idade muito avançada quando engravidou de Isaque (Gn. 21), e Maria sequer tinha coabitado com José (Mt. 1.18), quando engravidou de Jesus. O poder de Deus surpreende as leis da natureza, as ciências e a nossa mente limitada. Cremos que Ele pode fazer, se Ele quiser! Para Deus, todas as coisas são possíveis.  (Mt. 19.26). No entanto, ainda que Ele aja em nós pelas vias naturais, ainda que Ele nos permita passar por situações adversas e pelo sofrimento, ou até mesmo, a morte, nEle estará firmada a nossa confiança, a Ele louvaremos e honraremos, e só a Ele adoraremos. Ele nos tem reservado alegrias eternas em Sua presença, plenitude e paz que não cabe em nosso entendimento!

     Quando lhe sobrevierem o medo e o desespero, angústias intermináveis e o sofrimento que não se pode medir, não tenha pensamentos positivos, ou não fique se esforçando para inculcar em sua mente que você um dia será mãe. Volte seus pensamentos para Deus, o Deus que cuida de nós, que nos abençoa e ouve a nossa oração, e que é a nossa fortaleza nas tempestades! Ele não nos livra de todas elas, mas está conosco nelas! Ele nos faz lembrar que essa vida passará, mas a eternidade com Ele nos é certa e nos consola de todas as nossas dores aqui. Que você guarde em seu coração a verdadeira fé, na Pessoa de Jesus, e não nos acontecimentos tão pequenos que deseja o seu coração.

"Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvação. O Senhor Deus é a minha fortaleza, e faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente." Hb. 3.17-19

Soli Deo Gloria!
     

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A sala de espera!

     

     Quando eu estou me preparando para ir à uma consulta médica, eu quase sempre levo um livro para ler (exceto quando saio muito apressada e acabo esquecendo) . Eu costumo dizer que sou leitora de sala de espera. É nas intermináveis horas sentada naquelas salas lotadas que eu adianto boa parte das minhas leituras, já que na correria do dia a dia, muitas vezes, eu não as priorizo. Quando esqueço de levar meu livro da vez, assisto o filme da Sessão da Tarde ou começo a fazer amizades ali. Ficar sem fazer nada na sala de espera é, imensuravelmente, entediante. Você é assim também? Como você preenche o seu tempo nas longas horas de espera?

     Depois que recebi o diagnóstico da infertilidade, a minha primeira reação foi o choque e o sofrimento. Em seguida, veio a anestesia e a negação: "Não é bem assim. Essa é a opinião de um médico. Vai dar tudo certo. É só questão de tempo.". Não muito depois, a realidade veio à tona, e a ficha começou, finalmente, a cair: é mesmo verdade. Sofrimento outra vez. Por fim, e graças a Deus, comecei a olhar para cima, para o Senhor. A partir daquele episódio em que orei de todo o coração e entreguei ao Senhor, as coisas ganharam uma nova dimensão. Esperar pode ser muito entediante na sala de espera de uma clínica, mas na sala de espera da vida, esperar tem um propósito todo especial, e eu sabia que eu não poderia perder, por nenhum segundo sequer, as bênçãos de Deus reservadas para mim nesse momento tão importante da minha vida.

     Você lembra do episódio narrado em João 9, no qual Jesus cura um cego de nascença? A pergunta que os discípulos fizeram ao Senhor pode ter muito a ver conosco: "Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?" (v. 2) - Quantas vezes também somos tentadas a perguntar algo semelhante, como se a nossa condição fosse algum tipo de punição divina, consequência do nosso pecado ou demérito? Por quê eu? Por quê todas são atendidas e eu permaneço aqui, nessa sala de espera, por tempo indeterminado? - O Senhor responde para nós: "Nem ele pecou, nem os seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus."(v. 3). Paulo, na carta aos Romanos, nos diz: "E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado." (v. 3-5). Veja que grandes e inesgotáveis bênçãos Deus nos dá na sala de espera da vida! É nela que aprendemos a nos gloriar nas nossas tribulações, a perseverar, a ganhar experiência, a esperar no amor de Deus! "Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte." II Co. 12. 10.

     Pensando nisso (e penso muito nisso ultimamente!), resolvi listar para vocês, de maneira prática, como podemos fazer da nossa espera um período de grande crescimento, glorificando a Deus e o honrando pelo Seu amor e graça que nos tem dado. A nossa espera pode ser o oposto de "entediante". Pode ser rica, criativa, produtiva, dinâmica e feliz. 

  1. Leia mais a Bíblia: Ter uma rotina de leitura da Palavra de Deus fortalecerá o seu coração, que ficará cheio de esperança e vigor para enfrentar os dias mais difíceis! A Palavra de Deus também a ajudará a olhar para as tantas coisas que você pode fazer para a glória de Deus e a pensar com a mente de Cristo e não com os seus impulsos egoístas (Sl. 119.50);
  2. Dedique-se à oração: Não ter filhos ainda nos dá uma grande vantagem: podemos orar mais, podemos investir mais tempo falando com Deus, desprendidamente, sem ter ser interrompida por um chorinho dengoso ou uma briga entre irmãos. Ore por você, pelo seu esposo, pela sua família, amigos, irmãos em Cristo. Ore pelos que sofrem, ore pelos que padecem nas ruas. Orar melhora o nosso coração, nos faz pensar além de nós mesmas. Orar pode nos despertar para o serviço. Quando oramos por alguém, de alguma maneira, atentamos para a misericórdia e para a prática de boas obras! Ore também pelos seus futuros filhos! Deus está sempre presente e atento às nossas orações! (Sl. 116.1);
  3. Leia livros que edificam: Ler é maravilhoso. Mas não qualquer livro. Ler livros que tragam para nós a experiência vivenciada por servos de Deus, que vivem ou viveram guiados pela Palavra de Deus, isso sim é maravilhoso. Leia bons livros! Há tantos excelentes livros cristãos em português, que citá-los aqui daria um outro artigo. Leia blogs também! Aqui no blog, tenho o link de alguns dos bons que tem me edificado! Passa lá! (Pv. 10.14);
  4. Seja uma esposa melhor: A sala de espera da vida pode forjar em nós um caráter mais submisso e amoroso. Precisamos nos submeter ao Senhor e à sua Palavra. Ele nos chama a um amor profundo e dedicado ao nosso esposo. Precisamos aprender isso e aperfeiçoar esse amor, dia a dia! Aproveite essa fase da vida para fortalecer dia a dia esse amor e as suas próprias habilidades como esposa, segundo a Palavra de Deus! (Tt. 2.3-5);
  5. Faça visitas: Isso vai primeiro para mim. Visitar é muito importante! Há tantas pessoas precisando de um carinho, de um abraço, de uma oração, de alguém que se importe! Precisamos deixar de olhar apenas para nós mesmas e levar o amor de Deus para tantas pessoas que estão bem ao nosso redor! Não precisa ser uma visita formal! Leve um bolinho, um abraço e uma boa conversa! Estenda a sua mão e a sua ajuda! Pode ser a sua vizinha, a sua mãe, casais amigos, uma senhora enferma, um asilo de idosos ou um presídio. Visitar é importante e faz parte do nosso crescimento nesse momento de espera! Como eu desejo fazer isso! (Mt. 25.39-40);
  6. Exerça a hospitalidade: Receber pessoas em casa é sempre um grande desafio para mim! Não sou uma dona de casa exemplar ainda, nem uma boa cozinheira (embora eu me esforce!). Mas amo receber pessoas em casa! O Senhor nos chama à hospitalidade! Que isso se torne um hábito prazeroso para você, como eu desejo que se torne para mim! (Rm. 12.13);
  7. Aprimore suas habilidades em casa: Esperar pode ser algo muito produtivo para nós, quando aproveitamos para desenvolvermos bem o nosso chamado! Se você trabalha fora, é um ótimo momento da sua vida para você desenvolver uma tabela de serviços domésticos, para conseguir administrar melhor a sua rotina de trabalho (fora e dentro de casa). Se você não trabalha fora, assim como eu, é uma excelente oportunidade para aprender novas receitas, aprimorar sua agilidade, decorar sua própria casa e aprender sobre economia doméstica. A tabela de serviços é bem útil para ambos os casos. Descubra o prazer de cuidar do seu lar, pois o nosso lar é um presente de Deus! (Tt. 2.5; Cl. 3.23-24).
     Eu ainda acrescentaria outras dicas, como desenvolver sua criatividade, seus talentos, fazer atividade física, etc. Mas você mesma pode também pensar em outras coisas com as quais você pode glorificar a Deus nessa sala de espera da vida! 

     A vida nova que recebemos em Cristo é mesmo maravilhosa! Ainda quando enfrentamos dores e dias difíceis, o Senhor nos traz uma esperança acima do que podemos imaginar, e não nos aflige para sempre. Ele é a nossa alegria! Embora a maternidade seja algo extremamente desejado por nós, e parte do nosso chamado como mulheres cristãs, ela não é tudo para nós. Ela é só uma parte do nosso chamado. O SENHOR é tudo em nós e já nos tem chamado para uma boa porção de serviços, que, em nossa condição, podemos executar melhor! A infertilidade não nos veio por acaso. Deus nos tem chamado para servi-lo! Então, MÃOS À OBRA!

"Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito." Rm. 8.28


SOLI DEO GLORIA!



      

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Um presente incomparável!


     Eu ouvi as vozes deles. Eu ouvi aquelas risadas descontroladas. Sarah olhou para mim curiosa e a bebê deu aquele sorriso de canto, como se quisesse explicar alguma coisa. Eu dei de ombros, mas também estava curiosa. De repente, meu quarto foi invadido por eles. Estavam sem camisa, com aqueles pés sujos de andarem descalços, os cabelos despenteados, e uma risada engraçada, aparentemente, sem motivo. Deitaram na cama rindo sem parar! O que estava acontecendo, afinal? Samuel entrou logo depois e continuou a sessão de cócegas que havia começado na sala: estava explicado. Eu estava ali, ensaiando penteados com Sarinhah, e a caçulinha seria a próxima, se eles não tivessem interrompido daquele jeito nossa brincadeira de salão. Começamos a rir também, mas eu jamais poderia admitir aqueles pés sujos em cima da minha cama. "Davi e Isaque, que pés sujos são esses? Tsc tsc! Já para o banho, os dois!" E eles, simplesmente, foram se dissipando, entre os risos e a realidade que me acordava: sim, foi apenas um sonho, embora eu estivesse ali, bem acordada, tendo mais um dos meus devaneios enquanto lia qualquer artigo sobre criação de filhos ou decoração de quartos infantis - não me lembro bem, já que isso acontece tão frequentemente e tão naturalmente quanto escovar os dentes todos os dias. De repente, já não estava mais lendo nada. O choro irrompera mais uma vez. "Amor, vem cá..." gritei eu, chorando inconsoladamente. E lá vamos nós, para mais uma sessão de aconselhamento...

     Uma das coisas que mais atormenta a mulher infértil está constantemente diante dela. Se ela tiver poucos anos de casada e estiver ainda no começo de sua espera, ela ainda pode procurar pensar, assim como eu, na tentativa de se consolar: "Ah, se não engravidei ainda, vamos viajar, vamos aproveitar mais o nosso casamento, vamos procurar outros médicos, etc". Se ela já tenta engravidar há vários anos, já fez todos os exames, já passou por vários médicos e já está numa idade de risco, ela pode estar com bem menos esperança (ou nenhuma, talvez). Mas o fato é que, em ambos os casos, existe um medo latente e verdadeiramente assustador, que está sempre gritando dentro dela: o medo do futuro. "Como será o futuro sem filhos? Seremos uma família um dia, ou seremos sempre só nós dois?"

     A ansiedade e o medo do futuro podem tomar tão devastadoramente o coração de uma mulher infértil, que ela, de fato, perca a alegria e o ânimo pela vida. E perder a alegria é também perder o privilégio de perceber as bênçãos do presente que temos recebido, tão graciosamente, de Deus: o presente! Eu sei, isso é, de fato, um trocadilho antigo e cliché, mas continua sendo verdadeiro e urgente na nossa luta contra a ansiedade. Enquanto dedicamos todos os nossos esforços, pensando e investindo nossa inteligência, nossas leituras, nosso dinheiro, nosso tempo e tudo o que somos num futuro incerto, perdemos o melhor que podemos ter hoje: o presente.

     Crescer na espera é também aprender a viver um passo de cada vez. O que a Bíblia fala sobre isso?
  • "Portanto, não vos inquieteis dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal." Mt. 6.31-3
  • "Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte, lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós." I Pe. 5.6-7
     O medo do futuro diminui à medida que aprendemos que Deus tem o controle de nossas vidas, não nós. À medida que entendemos que o Senhor governa as nossas vidas com bondade e poder, e que não somos nós quem precisamos ter tudo sob as nossas mãos, viver um dia de cada vez passa a ocupar mais os nossos pensamentos.

     Olhe ao seu redor, e comece a observar a grandeza das pequenas coisas que Deus nos dá todos os dias! Os passarinhos cantam na sua janela? - eles cantam na minha! Você pode olhar para a simplicidade do seu dia a dia e ver o cuidado de Deus em cada detalhe? Essa espera pelo riso dos meus filhos, pelas brincadeiras na minha cama, e por tantos outros momentos que eu idealizo em meus devaneios não pode me privar de contemplar o sorriso do meu próprio marido hoje, a beleza do meu jardim, a alegria de perceber o cuidado de Deus nas coisas mais discretas da minha rotina. Isso tem me feito perceber, além da beleza e da tranquilidade de viver bem o hoje, que há muito em que preciso investir os meus esforços e pensamentos. A vida aqui é muito curta para passarmos mais tempo esperando e chorando do que servindo (e contemplando!) enquanto esperamos. E sobre isso, adianto que escreverei uma série de textos entitulada: Lendo e Aprendendo, para compartilhar o tanto que tenho aprendido sobre as possibilidades do hoje com os livros que estou lendo.

     Eu teria mais uma porção de textos bíblicos para compartilhar com você, tentando mostrar que o Senhor não quer que nos preocupemos com as coisas desta vida e que Ele mesmo se encarrega de nos dar todas as coisas, segundo a Sua vontade! Mas, isso faria deste artigo longo, e talvez você pulasse algumas partes. Que tal se você colecionar seus próprios aprendizados com a Palavra de Deus, diante dessa fase de crescimento, enquanto você espera? Anote tudo e compartilhe comigo o que você tem aprendido! E lembre-se: embora os acontecimentos futuros de nossa vida aqui não possamos controlar, temos recebido um presente lindo e de valor incalculável: o hoje! Podemos ter certeza de que o Senhor nos reserva alegria inimaginável e vida abundante com Ele (a grandeza do e ainda não!), as quais já desfrutamos hoje, mas as viveremos plenamente quando chegarmos, finalmente, em Casa. 

     Que o Senhor a desperte para o que você pode viver e fazer hoje, enquanto você espera! Que o Senhor encha-lhe de esperança para o futuro mais que perfeito que lhe está reservado na glória! Que o Senhor a ajude a esperar, tão somente, em Seu cuidado e provisão, e a viver em plenitude de alegria AGORA, exatamente neste segundo em que você lê esta última frase.

Soli Deo Gloria! 

     

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O Conselheiro

     

     Quando você pára para lembrar da sua infância, que criança você vê? Uma criança aventureira, que não hesitava em subir em árvores ou fazer escaladas nos móveis da casa? Uma daquelas que chorava para conseguir o que queria? O que você vê quando olha para a criança que já foi um dia?

     O que eu vejo pode ser, talvez, incomum, mas constitui grande parte das minhas lembranças: uma criança tímida, que, apesar de ter muitas amiguinhas, sentia-se meio escanteada, em parte, pela timidez, em parte, por ser a única protestante da classe... no entanto, curiosamente, ela costumava ser requisitada em uma hora bem importante: a hora dos conselhos. De alguma maneira, mesmo ainda criança, as minhas amigas me procuravam para pedir conselhos. Geralmente, eu não era a protagonista dos acontecimentos escolares (ou da igreja, ou da rua). Eu entrava na cena em que os envolvidos se davam mal por algum motivo e precisavam desabafar ou pedir ajuda. As minhas lembranças me apresentam como alguém que cresceu assim, aconselhando pessoas. Os motivos eram muitos: desentendimentos, namoricos, problemas no relacionamento dos pais dos meus colegas... e eu comecei a perceber que dar conselhos começou a ser uma marca da minha personalidade. Tornei-me adolescente, jovem... mas a coisa não mudou muito de cenário. O que eu não esperava era que isso me levaria a uma questão quase shakespeareana: quem aconselha o conselheiro? Be or not to be? That's the question. Parece que, no inconsciente popular (ou seria no meu próprio?), quem dá conselhos, não precisa deles. Pois bem, não demorou muito para eu notar que eu também precisava de conselhos.

     Mas quem seriam meus conselheiros? As minhas amigas queriam meus conselhos. Não sei se elas estariam tão dispostas a me aconselhar. Não  foram poucas as vezes que a minha mãe me advertia: "Você não pode continuar falando da sua vida pra todo mundo!" (Imagina quando ela souber que criei este blog!!) Não demorou muito para eu descobrir que eu não sabia escolher meus conselheiros. Meu critério: quem estivesse perto de mim na hora que eu quisesse desabafar. Lógico que isso não deu muito certo. Definitivamente. (Minha mãe que o diga!) Eu precisava de um ouvido sábio. Fui crescendo, apanhando, aprendendo.

     Mas... você sabe... a gente tem uma vida inteira pra aprender que a gente nunca aprende o suficiente. Eu realmente encontrei os bons e sábios conselheiros. Mas me vi enrolada com um outro problema: eu não sabia mais viver sem eles. Depois que a gente descobre uma alma caridosa, que ouça todas as nossas 16382819746281 palavras do dia, e tenha paciência para enxugar todo o nosso oceano de lágrimas, a gente começa a ficar mal acostumada. Eu poderia pedir desculpas nominalmente às minhas almas caridosas, mas pode ser que eu esqueça alguma delas. Desculpem-me, almas caridosas!

     Por que ficamos tão dependentes? Você teria um palpite? Eu tenho uma teoria. Ficamos dependentes porque os  conselhos não conseguem tirar a nossa angústia. Aí a gente quer mais conselhos, na expectativa de que quanto mais palavras, mais alívio. Infelizmente, a vitimização e a autopiedade são tão viciantes quanto qualquer droga.

    Por mais sábios, mansos, pacientes e amorosos que sejam a nossa amiga, o nosso pastor, a nossa mãe, irmã ou esposo, eles não conseguem arrancar de nós os nossos medos de um futuro sem filhos, os nossos sonhos de contar estórias para as crianças ao pé da cama antes de dormir, de viajar em família cantando músicas divertidas ou respondendo a perguntas engraçadas vindas do banco de trás. Por mais que se esforcem, as pessoas que mais amamos só conseguirão estar ali, presentes, perto de nós, para nos mostrar que não estamos sós. Não resolverão, todavia, os nossos problemas. Só que a gente não desiste. A gente aluga de novo, e de novo, e mais uma vez, e só mais um pouquinho, aqueles ouvidos e aqueles ombros, na esperança de que, dessa vez, eu realmente me sinta melhor.

     No mês passado, eu praticamente não fui à igreja. Apareci apenas nas noites de domingo. Eu não conseguia sair de casa. Eu não queria sair. Eu queria ficar bem ali, no escuro do meu quarto, escondida do mundo, chorando em paz. Eu não conseguia cuidar do meu esposo, da casa, fazer o almoço, cuidar do cachorro. Eu mal conseguia me levantar pela manhã. Eu não estava bem (e me sentia pior ainda quando me dava conta disso). Medo, tristeza, ansiedade, falta de fé (e de leitura da Palavra e de oração) formavam uma verdadeira avalanche se amontoando nos meus pensamentos, e, ao desmoronarem, só restava uma tonelada de escombros e gigantescos pedaços de culpa. Até que, enfim, numa tarde de domingo, lembrei-me do Senhor (eu sei que foi Ele quem me levou até Ele). Enquanto meu esposo dormia, eu me ajoelhei ao pé da cama. Ali, naquele cantinho de intimidade e silêncio, eu despejava todas as minhas lágrimas, toda a confusão da minha mente, todas as minhas culpas, tudo o que eu não conseguia dizer. Deve ter se passado uns 15 minutos, mas para mim foi como um dia inteiro, do tanto que Lhe falei. Desde então, surpreendentemente, tudo ficou diferente... A tristeza deu lugar ao alívio. As dúvidas, à esperança. O fracasso, à entrega. Naquele momento, eu percebi que eu já tinha falado do meu problema para minha família, minhas amigas e até para a igreja, e que já tinha ouvido conselhos de todos os tipos e de todos os lados, mas não tinha realmente pedido conselho ao Maravilhoso Conselheiro. Ah... como eu perdi tempo em não tê-lo procurado primeiro.

     Você lembrou da oração de Ana, no templo? Sim, eu também lembrei, depois de alguns dias. "Levantou-se Ana, e, com amargura de alma, orou ao Senhor, e chorou abundantemente (...)" (I Sm 1.11). Sim, Ana orou e chorou abundamente. Talvez eu e você, quando enfrentamos problemas, choremos abundamente, com amargura de alma, nos ombros de tantas pessoas... diante dos médicos, dos nossos pais, ou amigas... mas esquecemos de orar ao Senhor! Ana foi incompreendida pelo seu esposo Elcana (v. 8), que já, talvez, cansado de tantas lágrimas e lamentações, questionava-lhe os motivos de tamanha tristeza. Mas quando derramou o seu coração perante o Maravilhoso Conselheiro, o Senhor das nossas vidas, seu coração recebeu verdadeiro alívio. Ela não saiu do templo com a certeza de que seu desejo seria atendido, mas o seu semblante já não era triste (v. 18).

     Desde então (há quase duas semanas), já não mais chorei. Não tenho ainda certeza se um dia terei o carro cheio de brinquedos e parafernálias, ou se terei mais carrinhos no chão da sala do que espaço para pisar, mas o que sei é que conversar com o Conselheiro certo mudou a minha forma de enxergar a minha condição. O Maravilhoso e mais Sublime Conselheiro nos traz à memória a razão pela qual fomos criadas (sim, para a Sua própria glória!), o Seu amor para conosco (Ef. 2.4-6), e o modo como providencia todas as coisas a fim de nos abençoar (Rm. 8.28). Sim, de fato, todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus! Ainda a mais terrível dor tem um propósito maravilhosamente perfeito no plano de Deus para nós! Ele ainda nos lembra de que nada nesta vida -ou fora dela! - poderá nos separar do Seu amor (Rm. 8.35).

     E, como se já não fosse suficiente recebermos do Espírito toda a consolação, Ele ainda nos dá o privilégio de sermos usadas por Ele em nossa caminhada, para abençoar a vida de outras pessoas! A dor ganha outra conotação, quando enxergamos a consolação do Senhor como um meio de transformação do nosso próprio coração e daqueles que nos cercam, como vemos em II Co 1.4, 5: "É ele que nos conforta em toda a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus. Porque, assim como os sofrimentos de Cristo se manifestam em grande medida a nosso favor, assim também a nossa consolação transborda por meio de Cristo." (E assim surgiu este bloguinho!) Um verdadeiro bálsamo sobre a dor é a consolação que recebemos diretamente do nosso Deus!

     Você pode não ser como eu, e não ter facilidade para consolar-se com outras pessoas, ou pode ter se identificado com o meu jeito de reagir, Você pode ser tímida, extrovertida, falante ou reservada, ter muitos ou poucos amigos que lhe aconselham ou que estão ali nos seus piores momentos. Mas, saiba, somente o nosso Senhor pode, verdadeiramente, aliviar as nossas dores (Is. 53.4), compreender-nos perfeitamente (Is. 53.3), ouvir-nos incansavelmente (Fl. 4.6, 7) e encher-nos de alegria e esperança (Sl. 16.11; Cl. 1.11; I Co. 15.19; II Ts. 2.16)!

     Que o Consolador enxugue as suas lágrimas, como tem enxugado as minhas! Que Ele seja o seu melhor amigo e confidente, e que, com a mesma consolação que você receberá dEle, você também possa consolar outras pessoas pelo caminho. Deus a abençoe e a console, com a riqueza de Sua doce presença, todos os dias de sua vida!

Soli Deo Gloria!