quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Os filhos e os motivos...

   

     J. Stephen Yuille, em seu livro Uma Esperança Adiada - A Adocão e a Paternidade de Deus, usou esse termo para definir a sensação da excruciante dor da infertilidade: sim, é como bater, sem querer, num osso quebrado.

     É difícil conviver com um coração quebrado. As pessoas ao redor não estão vendo. As pessoas não sabem que dói. Eu mesma esqueço que dói, até topar com o próximo comentário, esbarrar na quina de uma conversa despretensiosa ou magoar o quase curativo no próximo conselho repetido.

     Dói. Dói muito. No entanto, por vezes, o problema é reduzido a quase nada, talvez por não ser um "osso quebrado" visível, talvez por falta de informação das pessoas. Diante de tantas soluções fáceis de serem ditas (e praticamente impossíveis de resolver o problema), eu mesma começo a me perguntar: Por que mesmo estou sentindo tudo isso? A minha dor tem algum sentido? Ter filhos é tão normal que chega a parecer banal. Por isso, não tê-los não chega a surpreender as pessoas, como um câncer ou o HIV, por exemplo. Parece até cruel da minha parte comparar a dor da infertilidade com uma doença grave. Afinal, o que tem de mais em não ter filhos? Por que sofrer tanto com isso? Parece fácil apresentar soluções simples para um problema que parece pequeno. Afinal, a infertilidade é um problema pequeno? Qual a importância dos filhos, para quem tem filhos? Será que eles não tem um valor (olhando por uma perspectiva reduzida) humano, social? E, sendo já grande essa dignidade, ainda que meramente humana, filhos não tem ainda maior valor na perspectiva bíblica, divina?

     "E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, enchei a terra e sujeitai-a;" Gn. 1.28. O homem e a mulher, criados à imagem e semelhança de Deus, o Deus Altíssimo, receberam, ao serem criados, uma ordem de Deus: multiplicarem-se, encherem a terra, sujeitá-la. Uma vez, quando estava morando no Instituto Bíblico do Norte - IBN, o rev. Milton César pregou nesse texto e eu gravei uma importante lição após a mensagem: Deus nos mandou multiplicar e encher a terra, não porque ele queria o mundo cheio de gente, simplesmente, mas porque, por meio da multiplicação do homem, toda a terra estaria cheia da imagem e semelhança dEle, o Deus Vivo. Sabemos que o homem pecou e que agora, esta imagem está manchada pela terrível sombra do pecado em nós. Mas, por causa da riqueza da misericórdia de Deus, Cristo nos dá esperança em Sua vida, morte e ressurreição. O "multiplicai-vos" continua sendo uma forma escolhida por Deus para que a terra seja cheia da Sua glória. Então, em primeiro lugar, fomos criados para a glória de Deus, e gerar filhos, criar filhos para a glória de Deus faz parte da ordem que nos foi dada, como seres criados por Deus, para a Sua glória. É um mandato.

     Em segundo lugar, "Herança do Senhor são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão. Como flechas na mão do guerreiro, assim os filhos da mocidade. Feliz o homem que enche deles a sua aljava; não será envergonhado, quando pleitear com os inimigos à porta." Sl. 128.3-5. A Palavra de Deus nos diz que os filhos são uma herança de Deus. Se há verdadeiro amor, verdadeiro temor em nosso coração, pelo Deus Vivo, devemos considerar que Sua herança dada a nós é de grande valor, de valor inestimável e deve ser ardentemente desejada por Seus filhos. A Bíblia associa os filhos à felicidade, neste salmo. Sim, é uma feliz herança, de valor imensurável, e deve ser apreciada por nós, almejada, valorizada, como um rico tesouro, como uma fonte de deleite, dada a nós pelo próprio Deus.

     Em terceiro lugar, as Escrituras nos apresentam os filhos não apenas como um mandato ou como um deleite, mas também como pontes para as futuras gerações. Não viveremos para sempre nesta terra. Os nossos filhos viverão depois de nós, e terão filhos, que terão filhos, que levarão às futuras gerações, continuamente, a riqueza da graça e do amor de Deus. "O que ouvimos e aprendemos, o que nos contaram nossos pais, não o encobriremos a seus filhos; contaremos à vindoura geração os louvores do Senhor, e o seu poder, e as maravilhas que fez." Sl. 78.3-4. Sim, filhos são parte do mandato, são uma fonte de deleite e são pontes para o futuro, por meio das quais a Igreja do Senhor se manterá viva nas futuras gerações.

     Eu poderia falar muito mais sobre o valor dos filhos para Deus, como, por exemplo, a forma como podemos viver em uma figura viva do amor de Deus por nós, seus filhos, e de como esses relacionamentos humanos (pais e filhos) revelam a grandeza do amor de Deus Pai por nós, entre tantos outros aspectos que a Bíblia ressalta na importância da criação de filhos para o nosso Deus. Mas acredito que estes três já sejam suficientes para mostrar que ter filhos não é uma coisa banal e que a infertilidade pode causar uma dor profundamente estonteante, porque faz o casal infértil se sentir incapaz de viver em família, de experimentar a riqueza desse deleite maravilhoso e único, não experimentado em nenhum outro relacionamento, a não ser na relação entre pais e filhos. Não poder gerar filhos gera incertezas, medos, tristezas e sensação de que não viveremos plenamente o evangelho, embora Cristo já tenha vencido por nós todas essas incertezas e já nos tenha garantido a Sua plenitude e graça.

     De alguma maneira, foi bom eu ter me aberto com a igreja e com vocês sobre o nosso problema de infertilidade. Por outro lado, me deparo com um constante arrependimento de ter me exposto tanto, talvez na tentativa de me esvaziar da dor e encontrar algo, algum conselho ou alguma coisa que aliviasse a minha dor. Hoje eu sei que as pessoas, por maior amor que tenham, e por melhores que sejam suas intenções, não conseguem chegar no cerne da dor, e, querendo aliviá-la, acabam tentando minimizar uma dor que é grande, e que não pode ser minimizada só porque ter filhos parece comum. Ter filhos, embora seja algo frequente e acontece com a maioria dos casais, é sempre um milagre, e será sempre especial, sempre marcante, pois este mandato estava conosco na criação, nos é um deleite no presente e uma ponte para o futuro.

     Se você é mãe ou pai, valorize a riqueza da maternidade/paternidade, dada a você pela graça divina. Não tente consolar seus amigos inférteis falando como se eles estivessem em vantagem por estarem sem filhos, por poderem aproveitar a vida a dois etc etc. Eles não estão em vantagem. E embora Deus possa abençoá-los ricamente sem filhos, Deus, por algum motivo, os está privando de gerar filhos. O melhor a fazer é orar por este casal, dar o seu amor e suporte e procurar sentir a dor desse casal. É como um osso quebrado. Se você está tentando ter filhos, assim como nós, eu sei como você se sente. A dor é mesmo excruciante. Que Deus nos ajude a suportar a dor da infertilidade, com grande esperança no porvir, onde Ele enxugará dos nossos olhos toda lágrima, e não haverá mais dor, nem tristeza, pois Ele será a nossa alegria, perpetuamente.

Soli Deo Gloria

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

A maternidade em Margaret Blaarer!



Olá, pessoas!

     Dessa vez, demorei bastante a escrever novamente. Não tenho estado muito bem. E, às vezes, é até melhor não falar muito sobre o assunto "gravidez", para diminuir a ansiedade. Ao mesmo tempo, quando me dedico a escrever neste blog, começo a enxergar melhor a realidade e a minha confiança no Senhor se fortalece. Quando tenho que estudar para escrever, não apenas escrevo para os leitores, mas o meu próprio coração aprende e encontra conforto (não em minhas palavras, mas na Palavra do Senhor e na forma como o Senhor vai trabalhando em minha compreensão).

     Há um tempo, escrevi um texto aqui falando que desejava escrever algo sobre as leituras às quais tenho tido acesso nesse período da minha vida. Então, resolvi começar por um capítulo de um dos maravilhosos livros da biblioteca do meu esposo, Sam: Grandes Mulheres da Reforma. Você já teve a oportunidade de ler esse livro? Bem, eu ainda não o concluí (ao que parece, meu pai está certo quando diz que eu sou formada em Desistência. --' Mas, felizmente, eu não desisti desse livro! Devo terminá-lo essa semana!), porém, até o presente momento, estou profundamente tocada com o exemplo de vida de tantas mulheres que influenciaram tão marcante e docemente o movimento da Reforma Protestante.

     No capítulo II, a respeito da Reforma na Alemanha, um nome me chamou a atenção: Margaret Blaarer. Ela não é mencionada no livro como uma esposa (ao que parece, ela não se casou). Entretanto, há um motivo para eu tê-la escolhido dentre as tantas mulheres apresentadas neste livro. Sem entrar em minúcias a respeito do contexto, Margaret era irmã de Ambrose Blaarer, um reformador importante em Constança e Wittemberg. Haviam ali muitos ministros pregando o evangelho, em 1527. Mas as dificuldades eram grandes. O autor fala que secas, pragas e terremotos vieram um após o outro. E "Margaret foi a excelente auxiliadora do seu irmão Ambrose.". Margaret destacava-se por ser uma mulher intelectual e era muito honrada por homens importantes na época. Mas o que desejo destacar é o seu coração humilde e cheio de bondade, que fazia dela uma verdadeira mãe. E aqui, quero destacar alguns trechos do livro com você: "Margaret era incansável em fazer o bem. Ela ensinou muitas crianças pobres a ler. Muitas foram as viúvas e os orfãos que ela visitou em seu sofrimento. Enquanto o seu irmão Ambrose empunhou a espada espiritual, a Palavra de Deus, e o seu outro irmão Thomas empunhou a espada da autoridade civil como líder da Reforma no conselho da cidade, o seu trabalho foi um labor quieto e silencioso de amor que alcançou a todos. A primeira sociedade de mulheres para cuidar dos enfermos foi organizada por ela; e com isto ela tornou-se a fundadora da primeira sociedade de mulheres da Igreja Protestante." Quero partilhar também um trechinho de uma carta que o irmão dela, Ambrose, escreveu para o reformador Bullinger: "Margaret, a melhor das irmãs, se comporta como uma arqui-diaconisa de nossa igreja, expondo a sua própria vida ao perigo. Diariamente, ela visita as casas onde os enfermos da peste estão sendo cuidados. Ela acabou de tomar uma pequena menina, a qual já tem ajudado e apoiado durante dez anos, para morar em sua casa. Ore ao Senhor, eu lhe suplico, para que Ele não permita que ela, que é o nosso único conforto, seja arrancada de nós."

     Bem, Margaret morreu em 1541, aos 47 anos, no mesmo ano em que seu irmão escreveu esta carta. Mas ter acesso à sua história me trouxe tanta coisa, tantos pensamentos, tantas lições, tantas reflexões! Essa bagagem se reflete em compreender as dimensões da maternidade de uma forma que pouco falamos ou ouvimos falar. Graças a Deus, a maternidade com a qual Ele presenteou as mulheres não se resume à gravidez. Embora a gravidez deva ser desejada pelas mulheres cristãs verdadeiramente tementes a Deus, a maternidade não é apenas um fenômeno biológico, fisiológico. Cada vez mais, estou convicta de que a maternidade é uma característica que mais tem a ver com um estado de submissão ao senhorio de Cristo do que com as condições naturais de se gerar um filho. Há muitas que geram filhos, que são de um certo modo mães, mas não exercem a maternidade. Entretanto, há tantas outras que, ainda solteiras, exercem a maternidade abundantemente, sem impedimentos, sem reservas. Margaret traz pra mim um grande exemplo de mãe. Deus, em Sua soberania, não lhe concedeu um casamento (até onde eu sei) ou filhos de seu ventre. Entretanto, Deus deu a Margaret um coração de serva, cheio de bondade, capaz de submeter-se a situações de grande perigo para ajudar os aflitos. Porventura, mãe não é mesmo assim? Aquela que cuida desprendidamente, que ama e sofre em favor de seus filhos? Margaret era uma verdadeira pérola, de grande valor diante de Deus e das pessoas ao seu redor. Bucer, o reformador de Estrasburgo, referia-se a ela como "irmã" e "mãe", embora ele fosse mais velho que ela três anos. A maternidade estava viva em seu coração. Ela compreendia que toda a sua feminilidade, dada por Deus, deveria servir e abençoar as crianças, as viúvas, os orfãos, os servos de Deus que estavam ali, bem ao seu redor, enfrentando tantas doenças e necessidades.

     Penso sobre mim. Sobre nós e nossa compreensão contemporânea a respeito da vida. Queremos ser mães. Mas queremos ser mães à nossa maneira. Queremos ter filhos biológicos, de preferência uma menina, para enfeitarmos de muitos lacinhos e frufrus. Queremos que seja logo, pois não queremos ser avós dos nossos filhos. Queremos pra ontem. Queremos que sejam filhos saudáveis, e de preferência que sejam a nossa cara. Queremos. Queremos. Queremos. E não é errado desejar todas essas coisas. Entretanto, esse nosso modo de desejar as coisas, sempre conforme a nossa própria vontade, pode nos cegar para aquilo que Deus já colocou em nós. 

     Então, de que maneira, você e eu podemos exercer a nossa maternidade hoje? Existe algum jovem carente na sua rua, necessitado dos nossos conselhos maternais? É uma criança necessitada que visitou a nossa igreja que precisa do nosso cuidado de mãe? É um abrigo? Um orfanato? Um hospital? Uma reunião de adolescentes? Quem precisa do nosso cuidado de mãe, hoje? É um jovem seminarista? Uma jovem desgarrada? Um novo convertido? Deus nos fez maternais. Quanto mais nos submetemos ao Senhor, mais entendemos que o nosso serviço não se resume ao que gostamos, mas ao Reino de Deus em toda a sua plenitude. Existem outras formas de ser mãe. Você abrirá seu coração para a maternidade, como serva de Deus, e buscará nEle orientação para vivê-la plenamente, a partir de hoje? Ou ficará presa unicamente à sua própria vontade?

"Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, FILHOS e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna." Mc. 10.30.

     Que a nossa esperança não se limite a esta vida! Que os nossos olhos vejam e o nosso coração se submeta em bondade ao Senhor que já nos tem dado todas as coisas! Que a bondade de Cristo produza em nós a maternidade além do que os olhos possam ver! Que acolhamos maternalmente em nosso coração, em nossas orações e em nossa vida prática tantos aflitos e necessitados, seguindo o exemplo de tantas santas mulheres, não apenas da Reforma Protestante, mas descritas na Palavra, que, submetidas em amor ao Senhor, foram mães de tantos servos de Deus e de tantos quantos Deus lhes concedeu como verdadeiros filhos de amor. Que Deus nos abençoe!

Soli Deo Gloria!

(imagem retirada do blog Mulheres Piedosas)

terça-feira, 27 de setembro de 2016

A verdadeira fé!

    

     "No ano terceiro do reinado de Jeoaquim, rei de Judá, veio Nabucodonosor, rei da Babilônia, a Jerusalém e a sitiou. (...) Disse o rei a Aspenaz, chefe dos seus eunucos, que trouxesse alguns dos filhos de Israel, tanto da linhagem real como dos nobres, jovens sem nenhum defeito, de boa aparência, instruídos em toda a sabedoria (...). Entre eles, se achavam, dos filhos de Judá, Daniel, Hananias, Misael e Azarias." Dn. 1.1, 3, 4a, 6.

     Escrevi partes do início do livro do profeta Daniel para que você possa entender, primeiramente, o contexto em que se encontravam os personagens bíblicos sobre os quais discorrerei neste texto. Hananias, Misael e Azarias tiveram seus nomes mudados pelo chefe dos eunucos do rei Nabucodonosor para Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, respectivamente. Eles agora viviam sob o domínio do rei da Babilônia. A maioria de nós já conhece essa história, de como eles se recusaram a se contaminarem com as iguarias do rei (v. 8), de como eles se destacaram dos demais jovens neste episódio, alimentando-se apenas de legumes e água (v. 12) e do quanto Deus os abençoava com inteligência (v. 17) diante de todos.

     No capítulo 3, contudo, vemos que o rei Nabucodonosor fez uma estátua de ouro enorme (v. 1), mandou chamar todos os seus servos - sátrapas, prefeitos, governadores, juízes, tesoureiros, magistrados, conselheiros e todos os oficiais das províncias (v. 3) -, para a consagração da estátua. E o arauto anunciou a todos a ordem do rei, de que todos indesculpavelmente teriam de se prostrar e adorar à estátua, quando soassem, por ordem do rei, os instrumentos e toda sorte de música (v. 4). Ao ouvirem isso, alguns homens caldeus lembraram-se de Hananias, Misael e Azarias e foram contar ao rei, o qual mandou chamá-los e ordenou-lhes firmemente que eles deveriam obedecer ao seu decreto e adorar à estátua, sob pena de serem lançados em uma fornalha de fogo ardente (vs. 14, 15). E conclui sua fala: "E quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?" Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, prontamente, lhe responderam: "Ó Nabucodonor, quanto a isto não necessitamos de te responder. Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e das tuas mãos, ó rei. Se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que levantaste." (vs. 16, 17).

     Já faz um tempo que medito sobre a resposta dos amigos de Daniel e a situação em que vivo hoje, após o diagnóstico da infertilidade. Se você enfrenta o mesmo problema que eu, já deve ter ouvido muitas pessoas insinuarem a sua falta de fé, ainda que não intencionalmente. Eu já até escrevi um texto sobre os conselhos que recebemos sobre este assunto e nem preciso repeti-los todos aqui. Mas o que observo é que a fé de que tanto falam e que é descrita para nós é bem semelhante à confissão positiva, só que com uma coloração suavizada, porque o termo usado é "fé" em um contexto religioso. É como se quisessem dizer que eu tenho que crer que eu vou ser mãe, se não eu não vou ser mãe. Não é bem parecido com o discurso espiritualista mundano de que a gente tem que "pensar positivo" para atrair "boas energias" ou "boas vibrações"? Dizer "Creia, vai chegar a sua hora!" ou "Vai dar certo! Confie em Deus!" é um tipo de fé um tanto quanto diferente da fé que tiveram os amigos de Daniel. Você não acha?

     Mas em que se diferencia? Fé é fé. Sim, é verdade. Mas a fé verdadeira, que Deus, soberanamente, deu aos amigos de Daniel, permitindo que estivesse registrada em Sua Palavra para nos servir como exemplo fundamental, não é uma fé depositada em coisas, em eventos, em situações passageiras ou sonhos ou desejos. A fé, a verdadeira fé, que deu coragem aos amigos de Daniel para enfrentarem o poderoso rei Nabuconosor, sob pena de morte, é depositada, não em coisas, mas em Deus. Eles não temiam a própria morte, embora soubessem que Deus, o Deus a quem serviam, era poderoso para livrá-los, como, de fato, o fez.

     Certamente, não estamos sendo ameaçadas de morte, e a situação daqueles homens, no livro de Daniel, não se assemelha à nossa. Mas podemos aprender muito sobre fé com este livro, inclusive quando o próprio Daniel, no capítulo 6, é lançado na cova dos leões. Sim, da mesma maneira que Deus operou um milagre na vida de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, livrando-os da fornalha ardente, Ele pode abrir a nossa madre e nos dar filhos! Sim, da mesma maneira como Deus livrou a Daniel da cova dos leões, Ele pode nos livrar de uma vida sem filhos e nos fazer mãe de muitos! Mas a grande lição que aprendemos com a vida desses homens é que o Senhor é digno de nossa fé e confiança, ainda que Ele não nos livre. Tudo é para a Sua glória. Nada é sobre nós mesmas. A nossa confiança não está em que Deus realizará todos os nossos desejos, por melhores que eles sejam, ou que nos livrará de todas as situações de perigo. Se fosse assim, não existiriam mártires, homens os quais "foram apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos a fio de espada; andaram peregrinos, vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos, maltratados (homens dos quais o mundo não era digno), errantes pelo deserto, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra. Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé não obtiveram, contudo, a concretização da promessa, por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados." (Hb. 11.38-40)

     O que podemos aprender, portanto, diante do que foi dito? Que a nossa fé, a verdadeira fé, precisa estar em Deus e no Seu Filho Jesus Cristo. Creio que Ele pode fazer todas as coisas e que nenhum diagnóstico, por pior que seja, pode impedi-lo de realizar a Sua vontade! Sara já era de idade muito avançada quando engravidou de Isaque (Gn. 21), e Maria sequer tinha coabitado com José (Mt. 1.18), quando engravidou de Jesus. O poder de Deus surpreende as leis da natureza, as ciências e a nossa mente limitada. Cremos que Ele pode fazer, se Ele quiser! Para Deus, todas as coisas são possíveis.  (Mt. 19.26). No entanto, ainda que Ele aja em nós pelas vias naturais, ainda que Ele nos permita passar por situações adversas e pelo sofrimento, ou até mesmo, a morte, nEle estará firmada a nossa confiança, a Ele louvaremos e honraremos, e só a Ele adoraremos. Ele nos tem reservado alegrias eternas em Sua presença, plenitude e paz que não cabe em nosso entendimento!

     Quando lhe sobrevierem o medo e o desespero, angústias intermináveis e o sofrimento que não se pode medir, não tenha pensamentos positivos, ou não fique se esforçando para inculcar em sua mente que você um dia será mãe. Volte seus pensamentos para Deus, o Deus que cuida de nós, que nos abençoa e ouve a nossa oração, e que é a nossa fortaleza nas tempestades! Ele não nos livra de todas elas, mas está conosco nelas! Ele nos faz lembrar que essa vida passará, mas a eternidade com Ele nos é certa e nos consola de todas as nossas dores aqui. Que você guarde em seu coração a verdadeira fé, na Pessoa de Jesus, e não nos acontecimentos tão pequenos que deseja o seu coração.

"Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvação. O Senhor Deus é a minha fortaleza, e faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente." Hb. 3.17-19

Soli Deo Gloria!
     

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A sala de espera!

     

     Quando eu estou me preparando para ir à uma consulta médica, eu quase sempre levo um livro para ler (exceto quando saio muito apressada e acabo esquecendo) . Eu costumo dizer que sou leitora de sala de espera. É nas intermináveis horas sentada naquelas salas lotadas que eu adianto boa parte das minhas leituras, já que na correria do dia a dia, muitas vezes, eu não as priorizo. Quando esqueço de levar meu livro da vez, assisto o filme da Sessão da Tarde ou começo a fazer amizades ali. Ficar sem fazer nada na sala de espera é, imensuravelmente, entediante. Você é assim também? Como você preenche o seu tempo nas longas horas de espera?

     Depois que recebi o diagnóstico da infertilidade, a minha primeira reação foi o choque e o sofrimento. Em seguida, veio a anestesia e a negação: "Não é bem assim. Essa é a opinião de um médico. Vai dar tudo certo. É só questão de tempo.". Não muito depois, a realidade veio à tona, e a ficha começou, finalmente, a cair: é mesmo verdade. Sofrimento outra vez. Por fim, e graças a Deus, comecei a olhar para cima, para o Senhor. A partir daquele episódio em que orei de todo o coração e entreguei ao Senhor, as coisas ganharam uma nova dimensão. Esperar pode ser muito entediante na sala de espera de uma clínica, mas na sala de espera da vida, esperar tem um propósito todo especial, e eu sabia que eu não poderia perder, por nenhum segundo sequer, as bênçãos de Deus reservadas para mim nesse momento tão importante da minha vida.

     Você lembra do episódio narrado em João 9, no qual Jesus cura um cego de nascença? A pergunta que os discípulos fizeram ao Senhor pode ter muito a ver conosco: "Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?" (v. 2) - Quantas vezes também somos tentadas a perguntar algo semelhante, como se a nossa condição fosse algum tipo de punição divina, consequência do nosso pecado ou demérito? Por quê eu? Por quê todas são atendidas e eu permaneço aqui, nessa sala de espera, por tempo indeterminado? - O Senhor responde para nós: "Nem ele pecou, nem os seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus."(v. 3). Paulo, na carta aos Romanos, nos diz: "E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado." (v. 3-5). Veja que grandes e inesgotáveis bênçãos Deus nos dá na sala de espera da vida! É nela que aprendemos a nos gloriar nas nossas tribulações, a perseverar, a ganhar experiência, a esperar no amor de Deus! "Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte." II Co. 12. 10.

     Pensando nisso (e penso muito nisso ultimamente!), resolvi listar para vocês, de maneira prática, como podemos fazer da nossa espera um período de grande crescimento, glorificando a Deus e o honrando pelo Seu amor e graça que nos tem dado. A nossa espera pode ser o oposto de "entediante". Pode ser rica, criativa, produtiva, dinâmica e feliz. 

  1. Leia mais a Bíblia: Ter uma rotina de leitura da Palavra de Deus fortalecerá o seu coração, que ficará cheio de esperança e vigor para enfrentar os dias mais difíceis! A Palavra de Deus também a ajudará a olhar para as tantas coisas que você pode fazer para a glória de Deus e a pensar com a mente de Cristo e não com os seus impulsos egoístas (Sl. 119.50);
  2. Dedique-se à oração: Não ter filhos ainda nos dá uma grande vantagem: podemos orar mais, podemos investir mais tempo falando com Deus, desprendidamente, sem ter ser interrompida por um chorinho dengoso ou uma briga entre irmãos. Ore por você, pelo seu esposo, pela sua família, amigos, irmãos em Cristo. Ore pelos que sofrem, ore pelos que padecem nas ruas. Orar melhora o nosso coração, nos faz pensar além de nós mesmas. Orar pode nos despertar para o serviço. Quando oramos por alguém, de alguma maneira, atentamos para a misericórdia e para a prática de boas obras! Ore também pelos seus futuros filhos! Deus está sempre presente e atento às nossas orações! (Sl. 116.1);
  3. Leia livros que edificam: Ler é maravilhoso. Mas não qualquer livro. Ler livros que tragam para nós a experiência vivenciada por servos de Deus, que vivem ou viveram guiados pela Palavra de Deus, isso sim é maravilhoso. Leia bons livros! Há tantos excelentes livros cristãos em português, que citá-los aqui daria um outro artigo. Leia blogs também! Aqui no blog, tenho o link de alguns dos bons que tem me edificado! Passa lá! (Pv. 10.14);
  4. Seja uma esposa melhor: A sala de espera da vida pode forjar em nós um caráter mais submisso e amoroso. Precisamos nos submeter ao Senhor e à sua Palavra. Ele nos chama a um amor profundo e dedicado ao nosso esposo. Precisamos aprender isso e aperfeiçoar esse amor, dia a dia! Aproveite essa fase da vida para fortalecer dia a dia esse amor e as suas próprias habilidades como esposa, segundo a Palavra de Deus! (Tt. 2.3-5);
  5. Faça visitas: Isso vai primeiro para mim. Visitar é muito importante! Há tantas pessoas precisando de um carinho, de um abraço, de uma oração, de alguém que se importe! Precisamos deixar de olhar apenas para nós mesmas e levar o amor de Deus para tantas pessoas que estão bem ao nosso redor! Não precisa ser uma visita formal! Leve um bolinho, um abraço e uma boa conversa! Estenda a sua mão e a sua ajuda! Pode ser a sua vizinha, a sua mãe, casais amigos, uma senhora enferma, um asilo de idosos ou um presídio. Visitar é importante e faz parte do nosso crescimento nesse momento de espera! Como eu desejo fazer isso! (Mt. 25.39-40);
  6. Exerça a hospitalidade: Receber pessoas em casa é sempre um grande desafio para mim! Não sou uma dona de casa exemplar ainda, nem uma boa cozinheira (embora eu me esforce!). Mas amo receber pessoas em casa! O Senhor nos chama à hospitalidade! Que isso se torne um hábito prazeroso para você, como eu desejo que se torne para mim! (Rm. 12.13);
  7. Aprimore suas habilidades em casa: Esperar pode ser algo muito produtivo para nós, quando aproveitamos para desenvolvermos bem o nosso chamado! Se você trabalha fora, é um ótimo momento da sua vida para você desenvolver uma tabela de serviços domésticos, para conseguir administrar melhor a sua rotina de trabalho (fora e dentro de casa). Se você não trabalha fora, assim como eu, é uma excelente oportunidade para aprender novas receitas, aprimorar sua agilidade, decorar sua própria casa e aprender sobre economia doméstica. A tabela de serviços é bem útil para ambos os casos. Descubra o prazer de cuidar do seu lar, pois o nosso lar é um presente de Deus! (Tt. 2.5; Cl. 3.23-24).
     Eu ainda acrescentaria outras dicas, como desenvolver sua criatividade, seus talentos, fazer atividade física, etc. Mas você mesma pode também pensar em outras coisas com as quais você pode glorificar a Deus nessa sala de espera da vida! 

     A vida nova que recebemos em Cristo é mesmo maravilhosa! Ainda quando enfrentamos dores e dias difíceis, o Senhor nos traz uma esperança acima do que podemos imaginar, e não nos aflige para sempre. Ele é a nossa alegria! Embora a maternidade seja algo extremamente desejado por nós, e parte do nosso chamado como mulheres cristãs, ela não é tudo para nós. Ela é só uma parte do nosso chamado. O SENHOR é tudo em nós e já nos tem chamado para uma boa porção de serviços, que, em nossa condição, podemos executar melhor! A infertilidade não nos veio por acaso. Deus nos tem chamado para servi-lo! Então, MÃOS À OBRA!

"Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito." Rm. 8.28


SOLI DEO GLORIA!



      

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Um presente incomparável!


     Eu ouvi as vozes deles. Eu ouvi aquelas risadas descontroladas. Sarah olhou para mim curiosa e a bebê deu aquele sorriso de canto, como se quisesse explicar alguma coisa. Eu dei de ombros, mas também estava curiosa. De repente, meu quarto foi invadido por eles. Estavam sem camisa, com aqueles pés sujos de andarem descalços, os cabelos despenteados, e uma risada engraçada, aparentemente, sem motivo. Deitaram na cama rindo sem parar! O que estava acontecendo, afinal? Samuel entrou logo depois e continuou a sessão de cócegas que havia começado na sala: estava explicado. Eu estava ali, ensaiando penteados com Sarinhah, e a caçulinha seria a próxima, se eles não tivessem interrompido daquele jeito nossa brincadeira de salão. Começamos a rir também, mas eu jamais poderia admitir aqueles pés sujos em cima da minha cama. "Davi e Isaque, que pés sujos são esses? Tsc tsc! Já para o banho, os dois!" E eles, simplesmente, foram se dissipando, entre os risos e a realidade que me acordava: sim, foi apenas um sonho, embora eu estivesse ali, bem acordada, tendo mais um dos meus devaneios enquanto lia qualquer artigo sobre criação de filhos ou decoração de quartos infantis - não me lembro bem, já que isso acontece tão frequentemente e tão naturalmente quanto escovar os dentes todos os dias. De repente, já não estava mais lendo nada. O choro irrompera mais uma vez. "Amor, vem cá..." gritei eu, chorando inconsoladamente. E lá vamos nós, para mais uma sessão de aconselhamento...

     Uma das coisas que mais atormenta a mulher infértil está constantemente diante dela. Se ela tiver poucos anos de casada e estiver ainda no começo de sua espera, ela ainda pode procurar pensar, assim como eu, na tentativa de se consolar: "Ah, se não engravidei ainda, vamos viajar, vamos aproveitar mais o nosso casamento, vamos procurar outros médicos, etc". Se ela já tenta engravidar há vários anos, já fez todos os exames, já passou por vários médicos e já está numa idade de risco, ela pode estar com bem menos esperança (ou nenhuma, talvez). Mas o fato é que, em ambos os casos, existe um medo latente e verdadeiramente assustador, que está sempre gritando dentro dela: o medo do futuro. "Como será o futuro sem filhos? Seremos uma família um dia, ou seremos sempre só nós dois?"

     A ansiedade e o medo do futuro podem tomar tão devastadoramente o coração de uma mulher infértil, que ela, de fato, perca a alegria e o ânimo pela vida. E perder a alegria é também perder o privilégio de perceber as bênçãos do presente que temos recebido, tão graciosamente, de Deus: o presente! Eu sei, isso é, de fato, um trocadilho antigo e cliché, mas continua sendo verdadeiro e urgente na nossa luta contra a ansiedade. Enquanto dedicamos todos os nossos esforços, pensando e investindo nossa inteligência, nossas leituras, nosso dinheiro, nosso tempo e tudo o que somos num futuro incerto, perdemos o melhor que podemos ter hoje: o presente.

     Crescer na espera é também aprender a viver um passo de cada vez. O que a Bíblia fala sobre isso?
  • "Portanto, não vos inquieteis dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal." Mt. 6.31-3
  • "Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte, lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós." I Pe. 5.6-7
     O medo do futuro diminui à medida que aprendemos que Deus tem o controle de nossas vidas, não nós. À medida que entendemos que o Senhor governa as nossas vidas com bondade e poder, e que não somos nós quem precisamos ter tudo sob as nossas mãos, viver um dia de cada vez passa a ocupar mais os nossos pensamentos.

     Olhe ao seu redor, e comece a observar a grandeza das pequenas coisas que Deus nos dá todos os dias! Os passarinhos cantam na sua janela? - eles cantam na minha! Você pode olhar para a simplicidade do seu dia a dia e ver o cuidado de Deus em cada detalhe? Essa espera pelo riso dos meus filhos, pelas brincadeiras na minha cama, e por tantos outros momentos que eu idealizo em meus devaneios não pode me privar de contemplar o sorriso do meu próprio marido hoje, a beleza do meu jardim, a alegria de perceber o cuidado de Deus nas coisas mais discretas da minha rotina. Isso tem me feito perceber, além da beleza e da tranquilidade de viver bem o hoje, que há muito em que preciso investir os meus esforços e pensamentos. A vida aqui é muito curta para passarmos mais tempo esperando e chorando do que servindo (e contemplando!) enquanto esperamos. E sobre isso, adianto que escreverei uma série de textos entitulada: Lendo e Aprendendo, para compartilhar o tanto que tenho aprendido sobre as possibilidades do hoje com os livros que estou lendo.

     Eu teria mais uma porção de textos bíblicos para compartilhar com você, tentando mostrar que o Senhor não quer que nos preocupemos com as coisas desta vida e que Ele mesmo se encarrega de nos dar todas as coisas, segundo a Sua vontade! Mas, isso faria deste artigo longo, e talvez você pulasse algumas partes. Que tal se você colecionar seus próprios aprendizados com a Palavra de Deus, diante dessa fase de crescimento, enquanto você espera? Anote tudo e compartilhe comigo o que você tem aprendido! E lembre-se: embora os acontecimentos futuros de nossa vida aqui não possamos controlar, temos recebido um presente lindo e de valor incalculável: o hoje! Podemos ter certeza de que o Senhor nos reserva alegria inimaginável e vida abundante com Ele (a grandeza do e ainda não!), as quais já desfrutamos hoje, mas as viveremos plenamente quando chegarmos, finalmente, em Casa. 

     Que o Senhor a desperte para o que você pode viver e fazer hoje, enquanto você espera! Que o Senhor encha-lhe de esperança para o futuro mais que perfeito que lhe está reservado na glória! Que o Senhor a ajude a esperar, tão somente, em Seu cuidado e provisão, e a viver em plenitude de alegria AGORA, exatamente neste segundo em que você lê esta última frase.

Soli Deo Gloria! 

     

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O Conselheiro

     

     Quando você pára para lembrar da sua infância, que criança você vê? Uma criança aventureira, que não hesitava em subir em árvores ou fazer escaladas nos móveis da casa? Uma daquelas que chorava para conseguir o que queria? O que você vê quando olha para a criança que já foi um dia?

     O que eu vejo pode ser, talvez, incomum, mas constitui grande parte das minhas lembranças: uma criança tímida, que, apesar de ter muitas amiguinhas, sentia-se meio escanteada, em parte, pela timidez, em parte, por ser a única protestante da classe... no entanto, curiosamente, ela costumava ser requisitada em uma hora bem importante: a hora dos conselhos. De alguma maneira, mesmo ainda criança, as minhas amigas me procuravam para pedir conselhos. Geralmente, eu não era a protagonista dos acontecimentos escolares (ou da igreja, ou da rua). Eu entrava na cena em que os envolvidos se davam mal por algum motivo e precisavam desabafar ou pedir ajuda. As minhas lembranças me apresentam como alguém que cresceu assim, aconselhando pessoas. Os motivos eram muitos: desentendimentos, namoricos, problemas no relacionamento dos pais dos meus colegas... e eu comecei a perceber que dar conselhos começou a ser uma marca da minha personalidade. Tornei-me adolescente, jovem... mas a coisa não mudou muito de cenário. O que eu não esperava era que isso me levaria a uma questão quase shakespeareana: quem aconselha o conselheiro? Be or not to be? That's the question. Parece que, no inconsciente popular (ou seria no meu próprio?), quem dá conselhos, não precisa deles. Pois bem, não demorou muito para eu notar que eu também precisava de conselhos.

     Mas quem seriam meus conselheiros? As minhas amigas queriam meus conselhos. Não sei se elas estariam tão dispostas a me aconselhar. Não  foram poucas as vezes que a minha mãe me advertia: "Você não pode continuar falando da sua vida pra todo mundo!" (Imagina quando ela souber que criei este blog!!) Não demorou muito para eu descobrir que eu não sabia escolher meus conselheiros. Meu critério: quem estivesse perto de mim na hora que eu quisesse desabafar. Lógico que isso não deu muito certo. Definitivamente. (Minha mãe que o diga!) Eu precisava de um ouvido sábio. Fui crescendo, apanhando, aprendendo.

     Mas... você sabe... a gente tem uma vida inteira pra aprender que a gente nunca aprende o suficiente. Eu realmente encontrei os bons e sábios conselheiros. Mas me vi enrolada com um outro problema: eu não sabia mais viver sem eles. Depois que a gente descobre uma alma caridosa, que ouça todas as nossas 16382819746281 palavras do dia, e tenha paciência para enxugar todo o nosso oceano de lágrimas, a gente começa a ficar mal acostumada. Eu poderia pedir desculpas nominalmente às minhas almas caridosas, mas pode ser que eu esqueça alguma delas. Desculpem-me, almas caridosas!

     Por que ficamos tão dependentes? Você teria um palpite? Eu tenho uma teoria. Ficamos dependentes porque os  conselhos não conseguem tirar a nossa angústia. Aí a gente quer mais conselhos, na expectativa de que quanto mais palavras, mais alívio. Infelizmente, a vitimização e a autopiedade são tão viciantes quanto qualquer droga.

    Por mais sábios, mansos, pacientes e amorosos que sejam a nossa amiga, o nosso pastor, a nossa mãe, irmã ou esposo, eles não conseguem arrancar de nós os nossos medos de um futuro sem filhos, os nossos sonhos de contar estórias para as crianças ao pé da cama antes de dormir, de viajar em família cantando músicas divertidas ou respondendo a perguntas engraçadas vindas do banco de trás. Por mais que se esforcem, as pessoas que mais amamos só conseguirão estar ali, presentes, perto de nós, para nos mostrar que não estamos sós. Não resolverão, todavia, os nossos problemas. Só que a gente não desiste. A gente aluga de novo, e de novo, e mais uma vez, e só mais um pouquinho, aqueles ouvidos e aqueles ombros, na esperança de que, dessa vez, eu realmente me sinta melhor.

     No mês passado, eu praticamente não fui à igreja. Apareci apenas nas noites de domingo. Eu não conseguia sair de casa. Eu não queria sair. Eu queria ficar bem ali, no escuro do meu quarto, escondida do mundo, chorando em paz. Eu não conseguia cuidar do meu esposo, da casa, fazer o almoço, cuidar do cachorro. Eu mal conseguia me levantar pela manhã. Eu não estava bem (e me sentia pior ainda quando me dava conta disso). Medo, tristeza, ansiedade, falta de fé (e de leitura da Palavra e de oração) formavam uma verdadeira avalanche se amontoando nos meus pensamentos, e, ao desmoronarem, só restava uma tonelada de escombros e gigantescos pedaços de culpa. Até que, enfim, numa tarde de domingo, lembrei-me do Senhor (eu sei que foi Ele quem me levou até Ele). Enquanto meu esposo dormia, eu me ajoelhei ao pé da cama. Ali, naquele cantinho de intimidade e silêncio, eu despejava todas as minhas lágrimas, toda a confusão da minha mente, todas as minhas culpas, tudo o que eu não conseguia dizer. Deve ter se passado uns 15 minutos, mas para mim foi como um dia inteiro, do tanto que Lhe falei. Desde então, surpreendentemente, tudo ficou diferente... A tristeza deu lugar ao alívio. As dúvidas, à esperança. O fracasso, à entrega. Naquele momento, eu percebi que eu já tinha falado do meu problema para minha família, minhas amigas e até para a igreja, e que já tinha ouvido conselhos de todos os tipos e de todos os lados, mas não tinha realmente pedido conselho ao Maravilhoso Conselheiro. Ah... como eu perdi tempo em não tê-lo procurado primeiro.

     Você lembrou da oração de Ana, no templo? Sim, eu também lembrei, depois de alguns dias. "Levantou-se Ana, e, com amargura de alma, orou ao Senhor, e chorou abundantemente (...)" (I Sm 1.11). Sim, Ana orou e chorou abundamente. Talvez eu e você, quando enfrentamos problemas, choremos abundamente, com amargura de alma, nos ombros de tantas pessoas... diante dos médicos, dos nossos pais, ou amigas... mas esquecemos de orar ao Senhor! Ana foi incompreendida pelo seu esposo Elcana (v. 8), que já, talvez, cansado de tantas lágrimas e lamentações, questionava-lhe os motivos de tamanha tristeza. Mas quando derramou o seu coração perante o Maravilhoso Conselheiro, o Senhor das nossas vidas, seu coração recebeu verdadeiro alívio. Ela não saiu do templo com a certeza de que seu desejo seria atendido, mas o seu semblante já não era triste (v. 18).

     Desde então (há quase duas semanas), já não mais chorei. Não tenho ainda certeza se um dia terei o carro cheio de brinquedos e parafernálias, ou se terei mais carrinhos no chão da sala do que espaço para pisar, mas o que sei é que conversar com o Conselheiro certo mudou a minha forma de enxergar a minha condição. O Maravilhoso e mais Sublime Conselheiro nos traz à memória a razão pela qual fomos criadas (sim, para a Sua própria glória!), o Seu amor para conosco (Ef. 2.4-6), e o modo como providencia todas as coisas a fim de nos abençoar (Rm. 8.28). Sim, de fato, todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus! Ainda a mais terrível dor tem um propósito maravilhosamente perfeito no plano de Deus para nós! Ele ainda nos lembra de que nada nesta vida -ou fora dela! - poderá nos separar do Seu amor (Rm. 8.35).

     E, como se já não fosse suficiente recebermos do Espírito toda a consolação, Ele ainda nos dá o privilégio de sermos usadas por Ele em nossa caminhada, para abençoar a vida de outras pessoas! A dor ganha outra conotação, quando enxergamos a consolação do Senhor como um meio de transformação do nosso próprio coração e daqueles que nos cercam, como vemos em II Co 1.4, 5: "É ele que nos conforta em toda a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus. Porque, assim como os sofrimentos de Cristo se manifestam em grande medida a nosso favor, assim também a nossa consolação transborda por meio de Cristo." (E assim surgiu este bloguinho!) Um verdadeiro bálsamo sobre a dor é a consolação que recebemos diretamente do nosso Deus!

     Você pode não ser como eu, e não ter facilidade para consolar-se com outras pessoas, ou pode ter se identificado com o meu jeito de reagir, Você pode ser tímida, extrovertida, falante ou reservada, ter muitos ou poucos amigos que lhe aconselham ou que estão ali nos seus piores momentos. Mas, saiba, somente o nosso Senhor pode, verdadeiramente, aliviar as nossas dores (Is. 53.4), compreender-nos perfeitamente (Is. 53.3), ouvir-nos incansavelmente (Fl. 4.6, 7) e encher-nos de alegria e esperança (Sl. 16.11; Cl. 1.11; I Co. 15.19; II Ts. 2.16)!

     Que o Consolador enxugue as suas lágrimas, como tem enxugado as minhas! Que Ele seja o seu melhor amigo e confidente, e que, com a mesma consolação que você receberá dEle, você também possa consolar outras pessoas pelo caminho. Deus a abençoe e a console, com a riqueza de Sua doce presença, todos os dias de sua vida!

Soli Deo Gloria!

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A revoada das cegonhas

     "Enquanto todos dormiam, e parecia ser aquele tipo de sono profundo e tranquilo, eu, inquieta e ansiosa, tentava dormir, mas minhas pálpebras piscavam inconstantes, já não sabendo se me deixavam no sonho ou na realidade. De repente, escuto aquele som do vento forte do outro lado da janela. Levanto-me, no ímpeto, para abrir a janela, e me deparo com uma das mais belas e esperadas cenas: a revoada das cegonhas! Não dava para contar, eram muitas, voando em bando, na calada da noite, com suas asas enormes e seus bicos compridos, em cujas pontas carregavam as preciosas trouxinhas, que traziam aquele chorinho, aquele cheirinho, aquela vidinha. Sim, as cegonhas estavam chegando. Será que tinham uma trouxinha para mim? "Eu estou aqui, eu nem dormi direito, esperando por vocês!", eu poderia ter dito, se tivessem vindo ao meu encontro. Eu vi uma a uma, deixando suas trouxinhas, em cada casa da minha vizinhança. A primeira a receber, sequer levantou para abrir a porta. A cegonha deixou-lhe a encomenda pela janela entreaberta. A segunda, nem esperava o presente, mas até que deu um sorrisinho desconfiado. Eu vi a terceira muito irritada ao ser acordada no meio da noite por aquela cegonha inconveniente: "Não podia ter vindo no feriado de São Nunca?", gritou ela, assustando a pobre cegonha. Eu vi uma outra recebendo a trouxinha e chorando, e ainda pude ouvi-la dizer: "O que vou fazer com isso?" Felizmente, algumas, ainda que não esperassem a surpresa, ficaram tão felizes que já não desligaram mais as luzes da casa. Eu ouvia os risos e observava o movimento de alegria por todos os cômodos. Ainda tinha esperança de que alguma cegonha atrapalhada tivesse deixado minha trouxinha em alguma casa errada. Mas a minha esperança se foi, quando vi aquelas aves alçarem vôo novamente. Lá se ia a revoada de cegonhas, enquanto eu, pela janela, sentia o coração despedaçar a cada batida de suas asas."

     Não. Os bebês não vêm em trouxinhas penduradas no bico das cegonhas. Mas essa estória consegue ilustrar bem a sensação da mulher infértil diante da chuva de mães que parece inundar a sua vida. E não tem guarda-chuva que proteja. A alegria e a tristeza formam um caldo estranho quando se misturam. Enquanto a gente ouve a chuva cair lá fora, a gente toma esse caldo, que nem aquece e nem alimenta. Insípido. O que estou sentindo, afinal? Por que estou sentindo isso? Por quê?

     Você consegue imaginar as sensações de uma mulher infértil na sala de espera da clínica da ginecologista? Uma, duas, cinco, dez gestantes, chegando e saindo, uma após a outra... e até chegam a perguntar: "Veio fazer o pré-natal também?", ao que ela tem de responder: "Não... só exames de rotina", enquanto prende o choro e conta as horas para que aquele tormento acabe logo. Consegue sentir? E quando algumas (ou muitas!) dessas gestantes sequer desejavam a gravidez? Ou estavam se prevenindo? Por que isso gera tantos sentimentos? Por que tanto... tanta... por que não sei definir o que sinto (ou tenho medo de definir)?

     A Palavra de Deus nos aponta algumas respostas, que quebram o nosso coração, todavia, nos conduz a Cristo de uma forma doce e tranquila. Versículo a versículo, vamos aprender juntas. Acompanhem comigo:

  • Êxodo 20.17: "Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo." 
     Difícil coisa é admitir a cobiça. Podemos até querer justificar (porque nos achamos boas demais, não é mesmo?), ou arranjar um outro nome para o nosso pecado. Mas o fato é que não existe "cobiça boa". Cobiça é inveja. No Catecismo Maior de Westminster, temos como resposta à pergunta 147, acerca dos deveres exigidos no décimo mandamento: "pleno contentamento com a nossa condição e disposição caridosa da alma para com o nosso próximo, de modo que todos os nossos desejos e afetos relativos a ele tendam para todo o seu bem e promovam o mesmo". À pergunta 148, sobre as proibições do décimo mandamento, lemos: "o descontentamento com o nosso estado; a INVEJA e a tristeza pelo bem do nosso próximo, juntamente com todos os desejos e afetos desordenados para com qualquer coisa que lhe pertença". O coração trincou pesado, certo?
  • I Coríntios 10.10: "Nem murmureis, como alguns deles murmuraram e foram destruídos pelo exterminador." 
     Como se não bastasse a inveja, a murmuração também dá aquele chute na porta do coração, e, agora, só vassoura e pá para juntar os cacos.

     Se você passa pelo problema da infertilidade, talvez lute contra esses pecados constantemente, assim como eu. Terrível coisa é lutar contra o pecado. Se lêssemos os demais textos, indicados no Catecismo Maior, como Gálatas 5.26, Tiago 3.14, 16, Romanos 7.7 (dá uma olhada lá depois), ficaríamos cada vez mais conscientes do quanto temos pecado contra Deus nesse sentido. Mas, infeliz ou felizmente, não é esperado outra coisa de nós, se não que a nossa natureza pecaminosa nos faça sentirmo-nos mesmo inúteis e incapazes de vencer o nosso próprio pecado. Infelizmente, porque somos mesmo pó e não conseguimos agradar a Deus. Felizmente, porque Deus já resolveu o nosso problema, e já pagou, em Cristo, a dívida que não conseguiríamos pagar. Ele é a nossa esperança contra todos os pecados e sentimentos ruins que nos surgem!
  • Colossenses 2.14: "tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz". 
     Sim! Fomos perdoadas! Temos paz com Deus, se verdadeiramente, confiamos no sacrifício do Senhor, e não nos nossos esforços. Por nós mesmas, não conseguimos vencer, mas Ele venceu por nós! Em Cristo, temos o perdão e a paz com Deus. Não há mais condenação. Isso nos traz não só alívio, mas também motivos para não pecarmos!

     Não precisamos enlouquecer por causa da culpa, pois temos Advogado junto ao Pai (I João 2.1, 2), mas também não podemos (e nem precisamos!) mais sentir inveja ou murmuração, pois, em Cristo, temos todas as coisas! Podemos não ter filhos, mas temos tantas doces promessas que estão sendo cumpridas em nós, que isso nos dá motivos de sobra para conseguirmos enfrentar um mundo de mães com alegria e esperança! Nele, temos todas as coisas! Não há motivos para dar lugar a qualquer sentimento de inveja ou murmuração, pois o Senhor nos promete ouvir as nossas orações, estar conosco até a consumação do século, fazer do nosso coração fluir rios de água viva! Ele também nos promete alegria incomparável a qualquer alegria deste mundo, uma alegria inquebrável e eterna, da qual já podemos desfrutar nesta vida! Ele está conosco e isso nos é tudo! Ele é a nossa vida e a nossa esperança! 

     Podemos não ter todas as respostas das causas da nossa infertilidade, ou não sabermos o motivo de tantas mulheres engravidarem ao nosso redor enquanto ainda continuamos esperando um milagre. Mas podemos aproveitar a nossa condição para aprendermos sobre o nosso próprio coração pecaminoso e sobre a abundante e preciosa misericórdia de Deus ao nos perdoar! Podemos aprender a ter um coração temente a Deus, e a agradecer por todas as Suas ricas promessas! Podemos não ter todos os sonhos realizados, mas a realidade que nos cerca é assombrosamente maravilhosa!

     Que o Senhor a ajude na luta contra o pecado! Que o Senhor a encha de esperança na alegria que vem de Sua graça e perdão! E, ainda, que Ele a conduza nesse caminho de dor, som sobriedade, para que você possa perceber tudo o que Ele está fazendo por você, enquanto você espera! Ele continua agindo e a conduzindo, pacientemente, ao pleno conhecimento do Seu amor, que não tem limites!

Soli Deo Gloria!

   

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Os fartos conselhos

    
     
     Uma das primeiras coisas que acontece na vida de uma mulher quando as pessoas descobrem que ela é infértil é que ela recebe uma verdadeira avalanche de conselhos. Se você está tentando engravidar, certamente já ouviu muitos. Se você conhece uma tentante, eu, sinceramente, espero que não tenha dado muitos (mas já, não é? Sabia! Haha! :)

     "Vai dar certo! É só você relaxar!", "Por quê vocês não fazem uma viagem?", "Você está trabalhando? Tire o foco da gravidez e rapidamente você vai estar grávida.", "Quando você menos esperar, vai aparecer grávida!", "Você não engravidou ainda porque não cortou o glúten e a lactose da sua alimentação!", "Aproveite mais seu casamento a dois! Quando vierem os filhos, você não vai ter mais sossego!", "É porque vocês são recém-casados e ainda não estão muito à vontade um com o outro.". Esses são alguns exemplos de conselhos e "laudos" que recebi de pessoas - a quem amo, vale ressaltar -, e olhe que não contei os milhares de exemplos de uma vizinha de uma amiga da avó da cunhada da irmã da prima que não podia ter filhos, mas, por um milagre, engravidou. O que fazer nessas horas?

     É difícil para as pessoas, ainda para aquelas que nos amam, encararem a situação com cumplicidade. Quem não conhece a dor da infertilidade na pele, não consegue perceber bem ao certo a necessidade de acolhimento de quem vive o problema. É bem verdade que aqueles casais que, simplesmente, relaxaram, não tinham um real problema com infertilidade. E é também verdade que milagres acontecem, mas podem não acontecer com todo mundo. Contudo, muitas pessoas, com as melhores intenções, de sanar o sofrimento (mais uma vez, o terrível pavor do sofrimento!), querem garantir para nós o cumprimento de promessas que, por mais que as desejemos, não nos foram feitas. Sim, é verdade: Deus ter prometido a Sara um filho não me dá o direito de pensar que Ele me dará também filhos. Embora Ele tenha poder para fazer da mulher estéril uma alegre mãe de filhos, isso não quer dizer que ele o fará com todas as mulheres estéreis do mundo, nem mesmo com todas as Suas filhas. 

     O fato é que alguns desses comentários e conselhos mais nos maltratam do que nos ajudam. Se esse texto fosse escrito para pessoas que não passam pelo problema, eu diria: por favor, orem pelo casal estéril, abracem-no, telefonem, convidem-no para passear, se importem com este casal e evitem dar conselhos que minimizam o problema. Não é só relaxar, não é só fazer uma viagem. Há um real problema de infertilidade, que não pode ser ignorado nem diminuído. No entanto, este texto foi escrito para você, que, assim como eu, ouve conselhos assim, todas vezes que alguém lhe pergunta: "E o bebê? Vem quando?" e você tem que responder: "Estamos tentando... fazendo exames..." etc. O que fazer diante dos conselhos que recebemos com tanto carinho, mas que fazem com que nos sintamos, muitas vezes, até com certo peso de culpa? (É verdade, a gente se sente culpada por, simplesmente, não conseguir "relaxar" ou "pensar em outra coisa". Afinal, esse definitivamente NÃO é o problema.)

     A primeira coisa que devemos lembrar é que Deus usa este momento de nossas vidas para aperfeiçoar o nosso coração. Em cada situação, em cada detalhe deste período, Deus está presente, enxergando a nossa dor, oferecendo-nos não apenas o Seu amor e consolo, mas também grandes oportunidades (e auxílio!) para moldar o nosso caráter à imagem do Seu Filho Jesus! As pessoas que chegam até nós, com os mais variados conselhos, não sondam o nosso coração, não nos vêem chorando ao pé da cama, não conhecem a fundo a ansiedade que nos toma a cada mês que o ciclo parece apontar uma esperança, não conhecem as nossas conversas, os nossos motivos, os nossos problemas. Elas vêem apenas a ponta do iceberg, e tentam ajudar conforme as suas forças! Cada uma delas faz o possível para nos consolar, com amor e alegria. Elas minimizam o problema? Sim (mas nem tem ideia de que estão fazendo isso!). Elas nos fazem sentir culpa? Sim (mas o que elas queriam mesmo era poder garantir o quanto antes que estivéssemos vivendo um milagre!). Em segundo lugar, precisamos ter em mente que só o Senhor nos conhece tão profundamente a ponto de nos dar exatamente o consolo de que necessitamos. Só o Senhor consegue adentrar no mais profundo do nosso ser, somente o Consolador é inteiramente conhecedor de nossa alma.

     Então, lembrando que Deus usa tudo o que acontece nessa espera para nos fazer crescer, ouvir os conselhos deve gerar em nós um coração benevolente. Eu me lembro, agora, de todas aquelas orações que fizemos ao Senhor e, hoje, damos graças a Deus por Ele não ter nos atendido! Deus olha para nós com benevolência! Ele não fica irado quando fazemos orações de todo o coração, ainda que não saibamos pedir (até porque não sabemos orar como convém!). Ao contrário disso, Ele nos ouve e o Espírito Santo traduz os nossos sentimentos, nas nossas lágrimas e até as nossas palavras ditas convictamente equivocadas em tantas orações. Ele nos vê com toda misericórdia e benevolência. Ele é maravilhoso! E é o Seu coração que deve nos servir de exemplo. Devemos lembrar do Senhor quando ouvirmos toda aquela tempestade de conselhos atrapalhados - porém, cheios de amor!

     Ouvir alguns conselhos pode não ser fácil nesse momento da nossa vida, pode doer, pode machucar, porém, se tentarmos enxergar as intenções por trás das palavras, aprenderemos a filtrar as boas coisas e a abraçar as pessoas com o mesmo amor com que tentam nos consolar. Cada super solução que nos seja apresentada, a gente simplesmente traduz como: "Essa pessoa me ama tanto... dá cá um abraço! Não tem ideia de que o meu problema é real... mas não tem problema.". Não precisamos dar todas as explicações. Não precisamos mostrar o quanto estamos sofrendo. Recebamos o amor das pessoas em forma de conselhos (até engraçados!) e as suas orações, e agradeçamos a Deus por estarmos cercadas de pessoas que tanto nos desejam bem!

     Que a bondade do Senhor inunde o nosso coração! Que este tempo de espera transforme o nosso coração cansado e irritado em um coração gracioso e benevolente, para a Sua glória! Deus a abençoe!

Soli Deo Gloria!
     

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Sofrimento em pauta

    

    Você, com certeza, assim como eu, já ouviu alguém dizer, em variados contextos: "O que importa é a sua felicidade!" ou perguntar: "Você está feliz?", como se isso fosse um pré-requisito para sabermos que o que estamos fazendo é mesmo correto. A prerrogativa é sempre a nossa felicidade. Estamos felizes? Continuemos. Infelizes? Melhor pararmos. E este imperativo pela felicidade a qualquer preço tem marcado profundamente o modo como vivemos e a nossa cosmovisão. Compramos, relacionamo-nos, pensamos, agimos e falamos a serviço da nossa felicidade, mesmo sem percebermos que é por causa dela que fazemos todas essas coisas. A verdade é que, se nos distraímos um pouco mais, já nos percebemos completamente distantes da vontade de Deus para nós e do propósito para o qual estamos aqui.

     O que isso tem a ver com o problema da infertilidade, afinal? É errado desejar engravidar? É pecado querer ter uma família? Isso também não é plano de Deus para nós? Obviamente, não é errado. Seria de se estranhar que não desejássemos filhos, já que sabemos o valor da família para Deus. Essa não é a questão, pois, como nos diz o apóstolo Paulo, em Filipenses 2.13: "porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade". A questão é que Deus, por Sua soberania e graça, não realiza todos os nossos desejos, ainda que eles sejam bons. Em um primeiro instante, somos tentadas a perguntar, quase que instintivamente: "Por quê?" Ora, se os nossos desejos são bons, por quê Deus não nos permite realizá-los? É aí que entra o sofrimento, o protagonista do nosso texto de hoje.

     Embora seja maravilhoso desfrutar as delícias da felicidade, falta-lhe algumas habilidades que nos são úteis para lapidar o coração. O sofrimento dói, machuca, rasga o coração, embaça nossa visão, tira o nosso chão. Entretanto, ele também lapida o nosso ser e direciona os nossos olhos Àquele que sofreu amargamente o castigo que nos traz a paz.

     18 de maio de 2016, e estávamos ansiosos na sala de espera de uma clínica em Fortaleza. Logo chegaria a nossa vez. Exames em mãos, coração apreensivo e, ao mesmo tempo, tranquilo. Pensávamos: "vai dar tudo certo!" (Você já disse isso a si mesma algumas vezes também, não é?). A atendente do médico entrou na sala sozinha, levando em mãos uma cópia do nosso exame, demorou-se lá dentro alguns minutos e, finalmente, saiu da sala. Havia chegado a nossa vez. A princípio, aquela conversa inicial com o médico de nossa confiança sempre nos deixa animados. E, como todo bom médico, ele começou a explicar... e explicar... e explicar... e... começamos a trocar alguns olhares... e, lentamente, demo-nos as mãos apreensivos. Aquilo não ia acabar bem. A certo ponto da conversa, a cada palavra dita pelo médico, era uma lágrima que escorria de meus olhos. E dali em diante, eu já não conseguia compreender palavra alguma... o coração parecia que ia explodir. Finalmente, saímos dali com a triste notícia: Somente a fertilização in vitro é indicada para vocês. Já havíamos conversado sobre isso antes. Essa não seria nossa escolha naquele momento. Saímos, finalmente, desolados, da clínica. Mas, ainda na calçada, abraçamos um ao outro, cúmplices de uma dor que não cabia em nós, e foi, então, que fechei os olhos molhados e Sam fez uma oração que marcou o início de uma nova etapa em nossas vidas: ele agradeceu ao Senhor. O Dono da Vida estava ali, bem ali, naquelas lágrimas. Ora, não eram os resultados humanos que nos impediam de engravidar. Era unicamente o Senhor. Ele, em Sua soberania e bondade, nos afligiu. Sabíamos disso ali. Sabemos disso hoje. Isso não me trouxe felicidade, nem me devolveu o sorriso ao rosto. Mas, certamente, tínhamos um Refúgio seguro na tempestade. Chorei o caminho inteiro, da clínica até a casa da minha sogra. E, não fosse o longo e acolhedor abraço de uma preciosa amiga (te amo, Fabí!), eu teria chorado desconsoladamente ao pé da cama. "Como nós (logo nós!), que sonhamos tanto com uma família grande, de no mínimo quatro filhos, estaríamos passando por isso? E os nossos planos de viagem em família, de praticarmos a educação domiciliar, de ensinarmos o catecismo nos nossos cultos domésticos? Tem alguma coisa errada aí! Isso não podia estar acontecendo!". Embora todos esses pensamentos se misturassem na minha mente às certezas que eu tinha no Senhor, graças ao Bom Deus, Sam esteve sempre sóbrio e confiante, e conseguia me fazer voltar a olhar corretamente para a situação: eu precisava olhar para Deus.

     Cinco meses já se passaram, e, embora aquela dor não me tome com toda a sua força hoje, o choro bate à porta com frequência. Se você também enfrenta a infertilidade, você vai me entender muito bem. Mas, sabe, o sofrimento, como já mencionei, tem algumas habilidades que não podemos ignorar. Não podemos fugir dessa realidade, mas muitas pessoas optam por fugir da dor, por esconder a dor, por substituir a dor por qualquer paleativo que seja capaz de saná-la imediatamente. O que elas não sabem é que sofrer faz bem. Não estou sendo mazoquista, gente. Calma. É que para o verdadeiro cristão, o sofrimento deve ser vivido, pois aperfeiçoa o nosso coração e nos aproxima de Deus. O sofrimento também nos torna sensíveis à dor do outro (ou vocês também não estão cansadas de ouvirem as pessoas dizerem que: "No momento que você relaxar, acontece?"). A Palavra de Deus nos diz, em Eclesiastes 7.3: "Melhor é a mágoa do que o riso, porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração." No Salmo 126, encontramos os lindos versículos, 5 e 6: "Os que com lágrimas semeiam com júbilo ceifarão. Quem sai andando e chorando, enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes." Com isso, não estou dizendo que, por causa das minhas lágrimas, eu vou conseguir engravidar, ou você irá. Não é isso. O meu desejo é que as nossas lágrimas reguem uma profunda intimidade com o Senhor Eterno e Bendito, Dono da Vida! E quanto aos feixes, que sejam profundas convicções de Sua bondade, misericórdia e amor imutável e eterno para conosco.

     Que você, assim como eu, aproveite este tempo de espera para crescer, como nunca antes, no conhecimento do Altíssimo! E, se um dia Deus nos der filhos, que possamos ensiná-los o valor do sofrimento, ao pé da cruz, para que jamais rejeitam as bênçãos que nos sobrevém nos momentos tempestuosos. Se Ele, contudo, não nos der filhos, que os nossos olhos permaneçam cheios de esperança e os nossos corações palpitantes pela alegria infindável da Eterna Morada com o nosso Jesus!

Que Deus a abençoe! Soli Deo Gloria!

(Foto retirada do google, via Divagando e Sempre)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O motivo, para começo de conversa

Olá!

     Tudo bem com você? Espero, de coração, que sim. Para começo de conversa, acho que é válido explicar o motivo da criação deste blog, e, para isso, cabe contar um pouco da minha história, para que você possa compreender melhor.

     Casei em 15 de novembro de 2013, com o melhor homem que Deus poderia escolher para mim: meu Sam! Com pouco tempo de casados, já planejávamos aumentar a família. Mas, resolvemos seguir os conselhos da família e esperamos um ano, para iniciarmos nossas tentativas de ter um filho. 

     Em novembro de 2014, parei de tomar anticoncepcional. Esperamos um mês, dois, três... seis... sete... e depois de muitos testes de farmácia e muitas lágrimas, resolvemos procurar uma médica ginecologista. Ela tratou algumas irregularidades no meu ciclo, e me indicou a progesterona, para que eu tomasse até dezembro de 2015. Caso eu não conseguisse engravidar nesses meses (de julho a dezembro), ela me encaminharia para um especialista em reprodução humana. E assim, aconteceu. Não engravidei. Fomos ao especialista em janeiro e iniciamos a investigação. Eu fiz vários exames, meu esposo também. 

     E, finalmente, chegou o triste dia 18 de maio, no qual recebemos a dolorosa notícia: dificilmente, seremos pais biológicos. O especialista nos deu apenas uma esperança: a fertilização in vitro. No entanto, não queremos nos submeter a isso. Meu esposo tem muitos receios quanto ao procedimento, e, embora saibamos que este pode ser o método que Deus use para abençoar muitos casais, não temos plena convicção do método para nós. Meu esposo confia que, se Deus quiser nos dar filhos, Ele o fará, a Seu tempo, e assim, ele tem me consolado.

    No entanto, é bem verdade que os dias tristes continuam, de vez em quando, a surgir, querendo tirar os nossos olhos do Senhor, e nos limitando a focar em nós mesmas e no que acreditamos ser o melhor para nós.

     Então, para encurtar a história, tive a ideia de criar este bloguinho, para compartilhar o melhor que podemos extrair nos dias difíceis: o aprendizado. Certamente, não há melhor maneira de crescermos do que atravessar o sofrimento com Cristo!

     E há, certamente, toda uma vida além do que os nossos sonhos podem alcançar, para aprimorarmos e desenvolvermos para Deus. Meu desejo é que tudo o que for compartilhado aqui ajude outras mulheres que sofrem com a infertilidade ou outros sofrimentos que tanto nos afligem nesta vida.

     Que o Senhor seja engrandecido em nossa fraqueza! Que a graça nos seja abundante em nossa fragilidade!

Soli Deo Gloria!