terça-feira, 30 de agosto de 2016

Sofrimento em pauta

    

    Você, com certeza, assim como eu, já ouviu alguém dizer, em variados contextos: "O que importa é a sua felicidade!" ou perguntar: "Você está feliz?", como se isso fosse um pré-requisito para sabermos que o que estamos fazendo é mesmo correto. A prerrogativa é sempre a nossa felicidade. Estamos felizes? Continuemos. Infelizes? Melhor pararmos. E este imperativo pela felicidade a qualquer preço tem marcado profundamente o modo como vivemos e a nossa cosmovisão. Compramos, relacionamo-nos, pensamos, agimos e falamos a serviço da nossa felicidade, mesmo sem percebermos que é por causa dela que fazemos todas essas coisas. A verdade é que, se nos distraímos um pouco mais, já nos percebemos completamente distantes da vontade de Deus para nós e do propósito para o qual estamos aqui.

     O que isso tem a ver com o problema da infertilidade, afinal? É errado desejar engravidar? É pecado querer ter uma família? Isso também não é plano de Deus para nós? Obviamente, não é errado. Seria de se estranhar que não desejássemos filhos, já que sabemos o valor da família para Deus. Essa não é a questão, pois, como nos diz o apóstolo Paulo, em Filipenses 2.13: "porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade". A questão é que Deus, por Sua soberania e graça, não realiza todos os nossos desejos, ainda que eles sejam bons. Em um primeiro instante, somos tentadas a perguntar, quase que instintivamente: "Por quê?" Ora, se os nossos desejos são bons, por quê Deus não nos permite realizá-los? É aí que entra o sofrimento, o protagonista do nosso texto de hoje.

     Embora seja maravilhoso desfrutar as delícias da felicidade, falta-lhe algumas habilidades que nos são úteis para lapidar o coração. O sofrimento dói, machuca, rasga o coração, embaça nossa visão, tira o nosso chão. Entretanto, ele também lapida o nosso ser e direciona os nossos olhos Àquele que sofreu amargamente o castigo que nos traz a paz.

     18 de maio de 2016, e estávamos ansiosos na sala de espera de uma clínica em Fortaleza. Logo chegaria a nossa vez. Exames em mãos, coração apreensivo e, ao mesmo tempo, tranquilo. Pensávamos: "vai dar tudo certo!" (Você já disse isso a si mesma algumas vezes também, não é?). A atendente do médico entrou na sala sozinha, levando em mãos uma cópia do nosso exame, demorou-se lá dentro alguns minutos e, finalmente, saiu da sala. Havia chegado a nossa vez. A princípio, aquela conversa inicial com o médico de nossa confiança sempre nos deixa animados. E, como todo bom médico, ele começou a explicar... e explicar... e explicar... e... começamos a trocar alguns olhares... e, lentamente, demo-nos as mãos apreensivos. Aquilo não ia acabar bem. A certo ponto da conversa, a cada palavra dita pelo médico, era uma lágrima que escorria de meus olhos. E dali em diante, eu já não conseguia compreender palavra alguma... o coração parecia que ia explodir. Finalmente, saímos dali com a triste notícia: Somente a fertilização in vitro é indicada para vocês. Já havíamos conversado sobre isso antes. Essa não seria nossa escolha naquele momento. Saímos, finalmente, desolados, da clínica. Mas, ainda na calçada, abraçamos um ao outro, cúmplices de uma dor que não cabia em nós, e foi, então, que fechei os olhos molhados e Sam fez uma oração que marcou o início de uma nova etapa em nossas vidas: ele agradeceu ao Senhor. O Dono da Vida estava ali, bem ali, naquelas lágrimas. Ora, não eram os resultados humanos que nos impediam de engravidar. Era unicamente o Senhor. Ele, em Sua soberania e bondade, nos afligiu. Sabíamos disso ali. Sabemos disso hoje. Isso não me trouxe felicidade, nem me devolveu o sorriso ao rosto. Mas, certamente, tínhamos um Refúgio seguro na tempestade. Chorei o caminho inteiro, da clínica até a casa da minha sogra. E, não fosse o longo e acolhedor abraço de uma preciosa amiga (te amo, Fabí!), eu teria chorado desconsoladamente ao pé da cama. "Como nós (logo nós!), que sonhamos tanto com uma família grande, de no mínimo quatro filhos, estaríamos passando por isso? E os nossos planos de viagem em família, de praticarmos a educação domiciliar, de ensinarmos o catecismo nos nossos cultos domésticos? Tem alguma coisa errada aí! Isso não podia estar acontecendo!". Embora todos esses pensamentos se misturassem na minha mente às certezas que eu tinha no Senhor, graças ao Bom Deus, Sam esteve sempre sóbrio e confiante, e conseguia me fazer voltar a olhar corretamente para a situação: eu precisava olhar para Deus.

     Cinco meses já se passaram, e, embora aquela dor não me tome com toda a sua força hoje, o choro bate à porta com frequência. Se você também enfrenta a infertilidade, você vai me entender muito bem. Mas, sabe, o sofrimento, como já mencionei, tem algumas habilidades que não podemos ignorar. Não podemos fugir dessa realidade, mas muitas pessoas optam por fugir da dor, por esconder a dor, por substituir a dor por qualquer paleativo que seja capaz de saná-la imediatamente. O que elas não sabem é que sofrer faz bem. Não estou sendo mazoquista, gente. Calma. É que para o verdadeiro cristão, o sofrimento deve ser vivido, pois aperfeiçoa o nosso coração e nos aproxima de Deus. O sofrimento também nos torna sensíveis à dor do outro (ou vocês também não estão cansadas de ouvirem as pessoas dizerem que: "No momento que você relaxar, acontece?"). A Palavra de Deus nos diz, em Eclesiastes 7.3: "Melhor é a mágoa do que o riso, porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração." No Salmo 126, encontramos os lindos versículos, 5 e 6: "Os que com lágrimas semeiam com júbilo ceifarão. Quem sai andando e chorando, enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes." Com isso, não estou dizendo que, por causa das minhas lágrimas, eu vou conseguir engravidar, ou você irá. Não é isso. O meu desejo é que as nossas lágrimas reguem uma profunda intimidade com o Senhor Eterno e Bendito, Dono da Vida! E quanto aos feixes, que sejam profundas convicções de Sua bondade, misericórdia e amor imutável e eterno para conosco.

     Que você, assim como eu, aproveite este tempo de espera para crescer, como nunca antes, no conhecimento do Altíssimo! E, se um dia Deus nos der filhos, que possamos ensiná-los o valor do sofrimento, ao pé da cruz, para que jamais rejeitam as bênçãos que nos sobrevém nos momentos tempestuosos. Se Ele, contudo, não nos der filhos, que os nossos olhos permaneçam cheios de esperança e os nossos corações palpitantes pela alegria infindável da Eterna Morada com o nosso Jesus!

Que Deus a abençoe! Soli Deo Gloria!

(Foto retirada do google, via Divagando e Sempre)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O motivo, para começo de conversa

Olá!

     Tudo bem com você? Espero, de coração, que sim. Para começo de conversa, acho que é válido explicar o motivo da criação deste blog, e, para isso, cabe contar um pouco da minha história, para que você possa compreender melhor.

     Casei em 15 de novembro de 2013, com o melhor homem que Deus poderia escolher para mim: meu Sam! Com pouco tempo de casados, já planejávamos aumentar a família. Mas, resolvemos seguir os conselhos da família e esperamos um ano, para iniciarmos nossas tentativas de ter um filho. 

     Em novembro de 2014, parei de tomar anticoncepcional. Esperamos um mês, dois, três... seis... sete... e depois de muitos testes de farmácia e muitas lágrimas, resolvemos procurar uma médica ginecologista. Ela tratou algumas irregularidades no meu ciclo, e me indicou a progesterona, para que eu tomasse até dezembro de 2015. Caso eu não conseguisse engravidar nesses meses (de julho a dezembro), ela me encaminharia para um especialista em reprodução humana. E assim, aconteceu. Não engravidei. Fomos ao especialista em janeiro e iniciamos a investigação. Eu fiz vários exames, meu esposo também. 

     E, finalmente, chegou o triste dia 18 de maio, no qual recebemos a dolorosa notícia: dificilmente, seremos pais biológicos. O especialista nos deu apenas uma esperança: a fertilização in vitro. No entanto, não queremos nos submeter a isso. Meu esposo tem muitos receios quanto ao procedimento, e, embora saibamos que este pode ser o método que Deus use para abençoar muitos casais, não temos plena convicção do método para nós. Meu esposo confia que, se Deus quiser nos dar filhos, Ele o fará, a Seu tempo, e assim, ele tem me consolado.

    No entanto, é bem verdade que os dias tristes continuam, de vez em quando, a surgir, querendo tirar os nossos olhos do Senhor, e nos limitando a focar em nós mesmas e no que acreditamos ser o melhor para nós.

     Então, para encurtar a história, tive a ideia de criar este bloguinho, para compartilhar o melhor que podemos extrair nos dias difíceis: o aprendizado. Certamente, não há melhor maneira de crescermos do que atravessar o sofrimento com Cristo!

     E há, certamente, toda uma vida além do que os nossos sonhos podem alcançar, para aprimorarmos e desenvolvermos para Deus. Meu desejo é que tudo o que for compartilhado aqui ajude outras mulheres que sofrem com a infertilidade ou outros sofrimentos que tanto nos afligem nesta vida.

     Que o Senhor seja engrandecido em nossa fraqueza! Que a graça nos seja abundante em nossa fragilidade!

Soli Deo Gloria!