sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Uma amiga chamada solidão

     Eu sempre fui alguém cercada de pessoas. Meu pai tem dez irmãos, minha mãe tem doze, e daí você pode imaginar quantos tios e tias compõem a minha vida, sem falar nos primos, filhos dos primos e todos os agregados. Já não bastasse ter uma família gigante, ainda fui criada em uma igreja de muitos membros, que interage com outras igrejas (da mesma denominação e de outras!), frequentei escola e fiz faculdade, o que pode explicar o grande número de amigos que tenho nas redes sociais. Sim, eu sou uma pessoa sociável. Conheço muita gente e muita gente me conhece, e tenho grande carinho por muitas pessoas e sei que muitas delas também o tem por mim.

     No entanto, apesar de sentir-me amada e saber que muitas pessoas me querem tanto bem, a cada dia cresce a terrível e assustadora sensação de que estou só. Acho que todo mundo que já foi adolescente um dia deve ter sentido em algum momento da vida a sensação de estar sozinho no meio da multidão. É normal. Mas a infertilidade prolonga essa sensação por tempo indeterminado e numa intensidade nível hard. O mundo não é feito de pessoas inférteis, apesar de este ser um problema que afeta tantas pessoas no mundo. A infertilidade sequer é citada entre os problemas da vida. Quer ver um exemplo? Eu sempre vejo os pregadores dizerem: "Você pode estar passando por uma doença na família, por problemas no seu casamento, ou problemas no relacionamento com seus filhos, ou problemas financeiros..." Dificilmente, alguém mencionará a infertilidade... Parece bobagem isso. E é. Mas o fato é que a infertilidade não parece um problema. Parece apenas um pequeno obstáculo à realização de um sonho pessoal. Quando alguém diz que é infértil, as pessoas ouvem algo como: "Queria tanto ter um filho... Mas não consigo realizar esse sonho." É quase comparado a alguém que diz: "Queria tanto comprar um carro... Mas não posso... Só ando a pé." As pessoas sentem um pouco de pena, e desejam que um dia o sonho se realize. Mas é só. Não chega a ser um problemão. É quase beirando à futilidade. Se as pessoas lhe vêem sofrendo por não ter um carro e só andar a pé, o que elas vão achar? Que você está exagerando, que tem outras formas de se locomover... Pega um ônibus. Um táxi. O metrô. Vai de bicicleta. Pronto. Simples. Que exagero sofrer por isso. Com a infertilidade é semelhante. Não pode ter? Ah, é simples: adota! Faz inseminação! Ou fica sem filhos, o que é que tem? Não chega a ser um problema de fato. Filhos entram apenas na esfera dos sonhos. Quem realmente enfrenta a infertilidade logo aprende que dificilmente alguém conseguirá entender a dimensão desse sofrimento, sem pender para a minimização do problema. Cada vez que expressamos qualquer tipo de sofrimento, acabamos nos sentindo ou crianças mimadas (chorar por não ter algo parece bem infantil mesmo, na perspectiva das pessoas), ou culpadas (porque não estamos confiando em Deus, ou porque não sabemos esperar, ou porque não "relaxamos") ou inconvenientemente tristes (porque a pessoa sempre tem que estar feliz, se não, está beirando a depressão ou a loucura e precisa urgentemente de um psiquiatra.).

     Quando Jó enfrentou grandes e terríveis dores, também teve de suportar a solidão e a incompreensão. A sua própria mulher não foi capaz de compreender o que estava acontecendo: "Ainda conservas a tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre." Claramente, essa jornada de sofrimento de Jó foi um trabalhar individual de Deus com Jó. Deve ter sido um período extremamente solitário para Jó, pois embora ele soubesse que era pecador, Ele sabia que aquele sofrimento não era por punição a nenhum de seus pecados.  Ele sabia que o sofrimento vinha da parte de Deus, mas não conseguia compreender as razões (Jó 10.7, 8; 12.9), até chegar o dia em que ele pôde dizer, afinal: "Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem." Sim, Deus usou o sofrimento para lapidar o coração de Jó, para fazê-lo conhecer os Seus caminhos, o Seu poder e a Sua misericórdia, como nunca antes. Ninguém podia aprender o que Jó estava aprendendo, ninguém podia entender o que Jó, pouco a pouco, passou a entender! Deus falava com Jó, e em toda aquela terrível fase, Jó estava cercado de pessoas, porém, profundamente solitário. Era ele e Deus o tempo todo. Deus o fazendo sentir-se incompreendido, sozinho, necessitado, dependente, para, depois de tudo, revelar-se a Jó de uma maneira transformadora e inimaginável. Jó, ao final, descobre que a sensação de solidão não significava uma solidão real. Ele nunca esteve só. Deus mostrou-se soberanamente presente, ativamente presente, e o Único verdadeiramente presente. Ele era o Agente Principal de tudo aquilo. Ele era a Causa e a Consequência. Ele era o Motivo.

     Penso em Jó e não me vem muito à memória a sua paciência. O que me lembra Jó é a sua solidão, com a qual me identifico agora. A caminhada cristã, apesar de nos fornecer a benção da comunhão com os irmãos e da unidade do corpo de Cristo, nos é  profundamente solitária. As situações do dia a dia, a rotina, os relacionamentos e os desafios diários são diferentes para cada cristão. Cada um de nós teremos que enfrentar sozinhos a lida do nosso dia a dia, cada um carregará a sua própria cruz, renunciará a sua própria vontade e desejos carnais e será moldado, em particular, pelo Deus que nos santifica. Ninguém poderá viver a minha infertilidade, e ainda outros que enfrentam o mesmo problema serão transformados de outro modo. As aulas de Deus são particulares. Não há como alguém passar a resposta de uma questão de prova nas aulas de Deus, porque, na realidade, não há ninguém ali, além de Deus e eu. Deus e você.

     Por ser uma pessoa extremamente social, acostumada com pessoas, dependente delas e sempre cercada por elas, tem sido difícil (MUITO DIFÍCIL!) entender a solidão como método de Deus. Mas a cada dia, percebo mais que ninguém poderá me ajudar, a menos que ore por mim. Nenhum palavra, ou abraço, ou solução imediata, resolverá. Somente o Senhor pode traduzir a minha confusão de pensamentos, somente Ele pode me ensinar, me aconselhar, me repreender, me acolher, enxugar minhas lágrimas, me compreender. E só Ele pode fazer isso porque é Ele quem me tem dado a infertilidade, e não outro. Por uma só palavra dEle, a estéril torna-se alegre mãe de filhos. É Ele que, por alguma razão, nos tem dado a infertilidade, e Ele quem tem nos afligido, seja para nos ensinar, repreender ou revelar a Sua glória (ou tudo isso junto!). Eu sempre digo ao meu esposo que o motivo de não termos filhos não é o fator feminino ou fator masculino. É, simplesmente, o Senhor quem nos impede de gerar. E só Ele pode mudar essa realidade.

     "Bom é o Senhor para os que esperam por ele, para a alma que o busca. Bom é aguardar a salvação do Senhor, e isso, em silêncio. Bom é para o homem suportar o jugo na sua mocidade. Assente-se solitário e fique em silêncio; porquanto esse jugo Deus pôs sobre ele; ponha a boca no pó; talvez ainda haja esperança". Lm. 3.25-29. Que a solidão não nos assuste, nem nos faça perder o juízo. Que a solidão nos torne mais hábeis para perceber quem sempre esteve presente. Que ela nos quebre e nos refaça. Que ela nos ensine, nos confronte, nos transforme e nos revele nitidamente a glória do Deus que opera em nós tanto o querer como o realizar. Que a solidão nos faça compreender que não somos o centro dos acontecimentos de nossa vida, mas que Ele é e sempre será. Ele é o motivo de tudo. Que o silêncio solitário que nos invade nos faça ouvir melhor a voz que nos diz "Eis que estou convosco até a consumação do século".

Soli Deo Gloria!