segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A revoada das cegonhas

     "Enquanto todos dormiam, e parecia ser aquele tipo de sono profundo e tranquilo, eu, inquieta e ansiosa, tentava dormir, mas minhas pálpebras piscavam inconstantes, já não sabendo se me deixavam no sonho ou na realidade. De repente, escuto aquele som do vento forte do outro lado da janela. Levanto-me, no ímpeto, para abrir a janela, e me deparo com uma das mais belas e esperadas cenas: a revoada das cegonhas! Não dava para contar, eram muitas, voando em bando, na calada da noite, com suas asas enormes e seus bicos compridos, em cujas pontas carregavam as preciosas trouxinhas, que traziam aquele chorinho, aquele cheirinho, aquela vidinha. Sim, as cegonhas estavam chegando. Será que tinham uma trouxinha para mim? "Eu estou aqui, eu nem dormi direito, esperando por vocês!", eu poderia ter dito, se tivessem vindo ao meu encontro. Eu vi uma a uma, deixando suas trouxinhas, em cada casa da minha vizinhança. A primeira a receber, sequer levantou para abrir a porta. A cegonha deixou-lhe a encomenda pela janela entreaberta. A segunda, nem esperava o presente, mas até que deu um sorrisinho desconfiado. Eu vi a terceira muito irritada ao ser acordada no meio da noite por aquela cegonha inconveniente: "Não podia ter vindo no feriado de São Nunca?", gritou ela, assustando a pobre cegonha. Eu vi uma outra recebendo a trouxinha e chorando, e ainda pude ouvi-la dizer: "O que vou fazer com isso?" Felizmente, algumas, ainda que não esperassem a surpresa, ficaram tão felizes que já não desligaram mais as luzes da casa. Eu ouvia os risos e observava o movimento de alegria por todos os cômodos. Ainda tinha esperança de que alguma cegonha atrapalhada tivesse deixado minha trouxinha em alguma casa errada. Mas a minha esperança se foi, quando vi aquelas aves alçarem vôo novamente. Lá se ia a revoada de cegonhas, enquanto eu, pela janela, sentia o coração despedaçar a cada batida de suas asas."

     Não. Os bebês não vêm em trouxinhas penduradas no bico das cegonhas. Mas essa estória consegue ilustrar bem a sensação da mulher infértil diante da chuva de mães que parece inundar a sua vida. E não tem guarda-chuva que proteja. A alegria e a tristeza formam um caldo estranho quando se misturam. Enquanto a gente ouve a chuva cair lá fora, a gente toma esse caldo, que nem aquece e nem alimenta. Insípido. O que estou sentindo, afinal? Por que estou sentindo isso? Por quê?

     Você consegue imaginar as sensações de uma mulher infértil na sala de espera da clínica da ginecologista? Uma, duas, cinco, dez gestantes, chegando e saindo, uma após a outra... e até chegam a perguntar: "Veio fazer o pré-natal também?", ao que ela tem de responder: "Não... só exames de rotina", enquanto prende o choro e conta as horas para que aquele tormento acabe logo. Consegue sentir? E quando algumas (ou muitas!) dessas gestantes sequer desejavam a gravidez? Ou estavam se prevenindo? Por que isso gera tantos sentimentos? Por que tanto... tanta... por que não sei definir o que sinto (ou tenho medo de definir)?

     A Palavra de Deus nos aponta algumas respostas, que quebram o nosso coração, todavia, nos conduz a Cristo de uma forma doce e tranquila. Versículo a versículo, vamos aprender juntas. Acompanhem comigo:

  • Êxodo 20.17: "Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo." 
     Difícil coisa é admitir a cobiça. Podemos até querer justificar (porque nos achamos boas demais, não é mesmo?), ou arranjar um outro nome para o nosso pecado. Mas o fato é que não existe "cobiça boa". Cobiça é inveja. No Catecismo Maior de Westminster, temos como resposta à pergunta 147, acerca dos deveres exigidos no décimo mandamento: "pleno contentamento com a nossa condição e disposição caridosa da alma para com o nosso próximo, de modo que todos os nossos desejos e afetos relativos a ele tendam para todo o seu bem e promovam o mesmo". À pergunta 148, sobre as proibições do décimo mandamento, lemos: "o descontentamento com o nosso estado; a INVEJA e a tristeza pelo bem do nosso próximo, juntamente com todos os desejos e afetos desordenados para com qualquer coisa que lhe pertença". O coração trincou pesado, certo?
  • I Coríntios 10.10: "Nem murmureis, como alguns deles murmuraram e foram destruídos pelo exterminador." 
     Como se não bastasse a inveja, a murmuração também dá aquele chute na porta do coração, e, agora, só vassoura e pá para juntar os cacos.

     Se você passa pelo problema da infertilidade, talvez lute contra esses pecados constantemente, assim como eu. Terrível coisa é lutar contra o pecado. Se lêssemos os demais textos, indicados no Catecismo Maior, como Gálatas 5.26, Tiago 3.14, 16, Romanos 7.7 (dá uma olhada lá depois), ficaríamos cada vez mais conscientes do quanto temos pecado contra Deus nesse sentido. Mas, infeliz ou felizmente, não é esperado outra coisa de nós, se não que a nossa natureza pecaminosa nos faça sentirmo-nos mesmo inúteis e incapazes de vencer o nosso próprio pecado. Infelizmente, porque somos mesmo pó e não conseguimos agradar a Deus. Felizmente, porque Deus já resolveu o nosso problema, e já pagou, em Cristo, a dívida que não conseguiríamos pagar. Ele é a nossa esperança contra todos os pecados e sentimentos ruins que nos surgem!
  • Colossenses 2.14: "tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz". 
     Sim! Fomos perdoadas! Temos paz com Deus, se verdadeiramente, confiamos no sacrifício do Senhor, e não nos nossos esforços. Por nós mesmas, não conseguimos vencer, mas Ele venceu por nós! Em Cristo, temos o perdão e a paz com Deus. Não há mais condenação. Isso nos traz não só alívio, mas também motivos para não pecarmos!

     Não precisamos enlouquecer por causa da culpa, pois temos Advogado junto ao Pai (I João 2.1, 2), mas também não podemos (e nem precisamos!) mais sentir inveja ou murmuração, pois, em Cristo, temos todas as coisas! Podemos não ter filhos, mas temos tantas doces promessas que estão sendo cumpridas em nós, que isso nos dá motivos de sobra para conseguirmos enfrentar um mundo de mães com alegria e esperança! Nele, temos todas as coisas! Não há motivos para dar lugar a qualquer sentimento de inveja ou murmuração, pois o Senhor nos promete ouvir as nossas orações, estar conosco até a consumação do século, fazer do nosso coração fluir rios de água viva! Ele também nos promete alegria incomparável a qualquer alegria deste mundo, uma alegria inquebrável e eterna, da qual já podemos desfrutar nesta vida! Ele está conosco e isso nos é tudo! Ele é a nossa vida e a nossa esperança! 

     Podemos não ter todas as respostas das causas da nossa infertilidade, ou não sabermos o motivo de tantas mulheres engravidarem ao nosso redor enquanto ainda continuamos esperando um milagre. Mas podemos aproveitar a nossa condição para aprendermos sobre o nosso próprio coração pecaminoso e sobre a abundante e preciosa misericórdia de Deus ao nos perdoar! Podemos aprender a ter um coração temente a Deus, e a agradecer por todas as Suas ricas promessas! Podemos não ter todos os sonhos realizados, mas a realidade que nos cerca é assombrosamente maravilhosa!

     Que o Senhor a ajude na luta contra o pecado! Que o Senhor a encha de esperança na alegria que vem de Sua graça e perdão! E, ainda, que Ele a conduza nesse caminho de dor, som sobriedade, para que você possa perceber tudo o que Ele está fazendo por você, enquanto você espera! Ele continua agindo e a conduzindo, pacientemente, ao pleno conhecimento do Seu amor, que não tem limites!

Soli Deo Gloria!

   

9 comentários:

  1. Passei mais de quatro anos nessa espera, por isso ler esse texto me levou às lágrimas. Sei bem o que é isso. Parabéns pelo blog, Gemima, Deus continue te abençoando e te usando para abençoar outras mulheres.

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    1. Ow, que bom que gostou do texto! É bom saber que tem pessoas que sabem exatamente o peso e a intensidade dos nossos sentimentos! Olha só, não apareceu seu nome... aparece "Desconhecido". Se puder se identificar, seria ótimo! Beijos!

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  2. Que lindo, Miminha. Também entendo o seu sentimento. Quando estava tentando engravidar e não conseguia, contei 13 amigas engravidando ao longo daqueles meses. Hoje, todas estão com seus filhos e entendi que não era o tempo de Deus. Aprendi muito, e talvez Deus esteja preparando a nossa resposta, assim como com certeza está preparando a sua. Precisamos confiar na Sua promessa para nossas vidas.

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    1. É verdade, Narinha! Deus nos ensina muito, muito mesmo! Não há como agradecer todo o cuidado dele por nós! Beijoss!

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    2. É verdade, Narinha! Deus nos ensina muito, muito mesmo! Não há como agradecer todo o cuidado dele por nós! Beijoss!

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  3. Poxa! Parabéns por em meio a tantas dificuldades vc pensar assim e poder glorificar o nome do Senhor. Hoje uma amiga me enviou seu link e achou que eu pudesse me identificar com seu blog, ele é muito legal e muito me alegra saber que a sua força vem do "Senhor". Posso dizer que tenho o mesmo diagnóstico médico e que o meu problema é bem real assim como vc relata, mas a minha alegria é saber que os planos do Senhor são bem melhores e vão mais além do que penso e hoje digo: posso não ter tudo que quero mas a sua graça me basta! O SENHOR é maravilhoso e só tenho a agradecer pois ele tem me sustentado dia a dia. Que Deus te abençoe mais e mais e te faça muito feliz!

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    1. Ah, que legal! É bom encontrar pessoas que nos entendem! Da próxima vez, deixa tua identificação! Assim, poderemos continuar conversando! Abraços

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  4. Puxa vida!!! Como demorei tanto a visitar o seu blog Mima!!! Peço desculpas por isso... olha só, esse texto particularmente me emocionou muito! Parabéns pelo dom da escrita...bjs

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