Quando você pára para lembrar da sua infância, que criança você vê? Uma criança aventureira, que não hesitava em subir em árvores ou fazer escaladas nos móveis da casa? Uma daquelas que chorava para conseguir o que queria? O que você vê quando olha para a criança que já foi um dia?
O que eu vejo pode ser, talvez, incomum, mas constitui grande parte das minhas lembranças: uma criança tímida, que, apesar de ter muitas amiguinhas, sentia-se meio escanteada, em parte, pela timidez, em parte, por ser a única protestante da classe... no entanto, curiosamente, ela costumava ser requisitada em uma hora bem importante: a hora dos conselhos. De alguma maneira, mesmo ainda criança, as minhas amigas me procuravam para pedir conselhos. Geralmente, eu não era a protagonista dos acontecimentos escolares (ou da igreja, ou da rua). Eu entrava na cena em que os envolvidos se davam mal por algum motivo e precisavam desabafar ou pedir ajuda. As minhas lembranças me apresentam como alguém que cresceu assim, aconselhando pessoas. Os motivos eram muitos: desentendimentos, namoricos, problemas no relacionamento dos pais dos meus colegas... e eu comecei a perceber que dar conselhos começou a ser uma marca da minha personalidade. Tornei-me adolescente, jovem... mas a coisa não mudou muito de cenário. O que eu não esperava era que isso me levaria a uma questão quase shakespeareana: quem aconselha o conselheiro? Be or not to be? That's the question. Parece que, no inconsciente popular (ou seria no meu próprio?), quem dá conselhos, não precisa deles. Pois bem, não demorou muito para eu notar que eu também precisava de conselhos.
Mas quem seriam meus conselheiros? As minhas amigas queriam meus conselhos. Não sei se elas estariam tão dispostas a me aconselhar. Não foram poucas as vezes que a minha mãe me advertia: "Você não pode continuar falando da sua vida pra todo mundo!" (Imagina quando ela souber que criei este blog!!) Não demorou muito para eu descobrir que eu não sabia escolher meus conselheiros. Meu critério: quem estivesse perto de mim na hora que eu quisesse desabafar. Lógico que isso não deu muito certo. Definitivamente. (Minha mãe que o diga!) Eu precisava de um ouvido sábio. Fui crescendo, apanhando, aprendendo.
Mas... você sabe... a gente tem uma vida inteira pra aprender que a gente nunca aprende o suficiente. Eu realmente encontrei os bons e sábios conselheiros. Mas me vi enrolada com um outro problema: eu não sabia mais viver sem eles. Depois que a gente descobre uma alma caridosa, que ouça todas as nossas 16382819746281 palavras do dia, e tenha paciência para enxugar todo o nosso oceano de lágrimas, a gente começa a ficar mal acostumada. Eu poderia pedir desculpas nominalmente às minhas almas caridosas, mas pode ser que eu esqueça alguma delas. Desculpem-me, almas caridosas!
Por que ficamos tão dependentes? Você teria um palpite? Eu tenho uma teoria. Ficamos dependentes porque os conselhos não conseguem tirar a nossa angústia. Aí a gente quer mais conselhos, na expectativa de que quanto mais palavras, mais alívio. Infelizmente, a vitimização e a autopiedade são tão viciantes quanto qualquer droga.
Por mais sábios, mansos, pacientes e amorosos que sejam a nossa amiga, o nosso pastor, a nossa mãe, irmã ou esposo, eles não conseguem arrancar de nós os nossos medos de um futuro sem filhos, os nossos sonhos de contar estórias para as crianças ao pé da cama antes de dormir, de viajar em família cantando músicas divertidas ou respondendo a perguntas engraçadas vindas do banco de trás. Por mais que se esforcem, as pessoas que mais amamos só conseguirão estar ali, presentes, perto de nós, para nos mostrar que não estamos sós. Não resolverão, todavia, os nossos problemas. Só que a gente não desiste. A gente aluga de novo, e de novo, e mais uma vez, e só mais um pouquinho, aqueles ouvidos e aqueles ombros, na esperança de que, dessa vez, eu realmente me sinta melhor.
No mês passado, eu praticamente não fui à igreja. Apareci apenas nas noites de domingo. Eu não conseguia sair de casa. Eu não queria sair. Eu queria ficar bem ali, no escuro do meu quarto, escondida do mundo, chorando em paz. Eu não conseguia cuidar do meu esposo, da casa, fazer o almoço, cuidar do cachorro. Eu mal conseguia me levantar pela manhã. Eu não estava bem (e me sentia pior ainda quando me dava conta disso). Medo, tristeza, ansiedade, falta de fé (e de leitura da Palavra e de oração) formavam uma verdadeira avalanche se amontoando nos meus pensamentos, e, ao desmoronarem, só restava uma tonelada de escombros e gigantescos pedaços de culpa. Até que, enfim, numa tarde de domingo, lembrei-me do Senhor (eu sei que foi Ele quem me levou até Ele). Enquanto meu esposo dormia, eu me ajoelhei ao pé da cama. Ali, naquele cantinho de intimidade e silêncio, eu despejava todas as minhas lágrimas, toda a confusão da minha mente, todas as minhas culpas, tudo o que eu não conseguia dizer. Deve ter se passado uns 15 minutos, mas para mim foi como um dia inteiro, do tanto que Lhe falei. Desde então, surpreendentemente, tudo ficou diferente... A tristeza deu lugar ao alívio. As dúvidas, à esperança. O fracasso, à entrega. Naquele momento, eu percebi que eu já tinha falado do meu problema para minha família, minhas amigas e até para a igreja, e que já tinha ouvido conselhos de todos os tipos e de todos os lados, mas não tinha realmente pedido conselho ao Maravilhoso Conselheiro. Ah... como eu perdi tempo em não tê-lo procurado primeiro.
Você lembrou da oração de Ana, no templo? Sim, eu também lembrei, depois de alguns dias. "Levantou-se Ana, e, com amargura de alma, orou ao Senhor, e chorou abundantemente (...)" (I Sm 1.11). Sim, Ana orou e chorou abundamente. Talvez eu e você, quando enfrentamos problemas, choremos abundamente, com amargura de alma, nos ombros de tantas pessoas... diante dos médicos, dos nossos pais, ou amigas... mas esquecemos de orar ao Senhor! Ana foi incompreendida pelo seu esposo Elcana (v. 8), que já, talvez, cansado de tantas lágrimas e lamentações, questionava-lhe os motivos de tamanha tristeza. Mas quando derramou o seu coração perante o Maravilhoso Conselheiro, o Senhor das nossas vidas, seu coração recebeu verdadeiro alívio. Ela não saiu do templo com a certeza de que seu desejo seria atendido, mas o seu semblante já não era triste (v. 18).
Desde então (há quase duas semanas), já não mais chorei. Não tenho ainda certeza se um dia terei o carro cheio de brinquedos e parafernálias, ou se terei mais carrinhos no chão da sala do que espaço para pisar, mas o que sei é que conversar com o Conselheiro certo mudou a minha forma de enxergar a minha condição. O Maravilhoso e mais Sublime Conselheiro nos traz à memória a razão pela qual fomos criadas (sim, para a Sua própria glória!), o Seu amor para conosco (Ef. 2.4-6), e o modo como providencia todas as coisas a fim de nos abençoar (Rm. 8.28). Sim, de fato, todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus! Ainda a mais terrível dor tem um propósito maravilhosamente perfeito no plano de Deus para nós! Ele ainda nos lembra de que nada nesta vida -ou fora dela! - poderá nos separar do Seu amor (Rm. 8.35).
E, como se já não fosse suficiente recebermos do Espírito toda a consolação, Ele ainda nos dá o privilégio de sermos usadas por Ele em nossa caminhada, para abençoar a vida de outras pessoas! A dor ganha outra conotação, quando enxergamos a consolação do Senhor como um meio de transformação do nosso próprio coração e daqueles que nos cercam, como vemos em II Co 1.4, 5: "É ele que nos conforta em toda a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus. Porque, assim como os sofrimentos de Cristo se manifestam em grande medida a nosso favor, assim também a nossa consolação transborda por meio de Cristo." (E assim surgiu este bloguinho!) Um verdadeiro bálsamo sobre a dor é a consolação que recebemos diretamente do nosso Deus!
Você pode não ser como eu, e não ter facilidade para consolar-se com outras pessoas, ou pode ter se identificado com o meu jeito de reagir, Você pode ser tímida, extrovertida, falante ou reservada, ter muitos ou poucos amigos que lhe aconselham ou que estão ali nos seus piores momentos. Mas, saiba, somente o nosso Senhor pode, verdadeiramente, aliviar as nossas dores (Is. 53.4), compreender-nos perfeitamente (Is. 53.3), ouvir-nos incansavelmente (Fl. 4.6, 7) e encher-nos de alegria e esperança (Sl. 16.11; Cl. 1.11; I Co. 15.19; II Ts. 2.16)!
Que o Consolador enxugue as suas lágrimas, como tem enxugado as minhas! Que Ele seja o seu melhor amigo e confidente, e que, com a mesma consolação que você receberá dEle, você também possa consolar outras pessoas pelo caminho. Deus a abençoe e a console, com a riqueza de Sua doce presença, todos os dias de sua vida!
Soli Deo Gloria!

Amém. Não canso de ler tão sábias palavras. Suas palavras emocionam pq tem vida. Que possamos aprender todos os dias a buscar primeiro O Conselheiro.
ResponderExcluirAmém. Não canso de ler tão sábias palavras. Suas palavras emocionam pq tem vida. Que possamos aprender todos os dias a buscar primeiro O Conselheiro.
ResponderExcluirSim, amiga! O nosso Senhor amado tem nos consolado de tantas angústias dos nossos dias... nem sequer sabemos encontrar palavras para agradecê-lo! Amo vc, amiga.
ExcluirSim, amiga! O nosso Senhor amado tem nos consolado de tantas angústias dos nossos dias... nem sequer sabemos encontrar palavras para agradecê-lo! Amo vc, amiga.
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